Navio Museu Santo André
Navio Museu Santo André

Para ilustrar o que aqui acaba de ser referido, com a devida vénia de respeito transcrevemos um texto recentemente publicado pelo ilhavense João Marnoto no Facebook, em “Ilhavenses e amigos à conversa”.

«Um amigo meu, de origem alemã, pretendeu conhecer o navio da pesca do bacalhau “Santo André”, visto ter ficado deslumbrado com a visita que já tinha feito ao Museu Marítimo de Ílhavo e lhe terem referenciado aquele navio como o complemento vivo do que foi a pesca do bacalhau.

Assim o fizemos. Todavia, para quem queira ficar com uma ideia, por mais pálida que seja, do que foi a vivência de quarenta a sessenta homens na repartição dos espaços exíguos do trabalho e do descanso, a visita ao barco pouco ou nada ensina. Existe muito pouca sinalização para identificar as várias partes do barco. O acesso à casa das máquinas não é permitido. Grande parte dos acessos no interior do navio encontram-se encerrados. Na ponte do comando alguns dos aparelhos manifestam estado de vandalização. A comunicação do que era a vida a bordo através do audiovisual não existe; do equipamento de televisão somente o aparelho instalado na cozinha funcionava. Não existem configurações do que seria a vida a bordo, com a utilização de manequins devidamente trajados, tal como se verifica em outros casos idênticos, como é o exemplo do barco-hospital “Gil Eanes” que, como museu vive os seus dias fundeado em Viana do Castelo. E, por fim, o inimaginável: no barco salva-vidas cresce vegetação dando uma imagem de incúria, de desleixo e de falta de respeito pela história daquele barco e por quem o visita.

Se é assim que o Museu de Ílhavo, e em particular aqueles que o dirigem, pretende salvaguardar a história dos bravos homens do mar da Terra Nova e da Groenlândia e dos barcos que durante meses eram a sua residência de descanso e trabalho, o melhor será não apresentar o “Santo André” como seu complemento.

Nem a simpatia da funcionária que vende os bilhetes de entrada, a quem solicitamos documentação sobre o navio e que nos disse não existir, conseguiu demover a frustração e a surpresa do momento que tínhamos acabado de viver».

Perante este testemunho de um jornalista ilhavense de créditos firmados, autor de extraordinários trabalhos em revistas e jornais quer nacionais quer estrangeiros, pessoa muito procurada por visitantes vindos de longínquas paragens que a ele recorrem para lhes apresentar Ílhavo em todo o seu esplendor, muito pouco seria que nos ficássemos apenas por lamentar a frustração e a surpresa do momento que este nosso amigo tinha acabado de viver.

Nem a propósito, um dia destes visitámos o Navio Hospital Gil Eanes (ver retrato dessa visita aqui mesmo e em destaque nesta edição), contraste evidente entre a forma como este, já a caminho da sucata, foi resgatado, como foi reabilitado e como tem sido mantido – um verdadeiro orgulho para todos os que fizeram chegar esse pedaço da história dessa mesma epopeia da Pesca do Bacalhau à linha aos nossos dias, verdadeiro contraste, dizíamos, com o Santo André fundeado frente ao Jardim Oudinot, na Gafanha da Nazaré que, como se verifica, não pode ser motivo de orgulho para ninguém, infelizmente.

Para cuidar dignamente de unidades como esta que se pretende salvaguardar, aliás, parte importante da história das vivências de toda uma comunidade, parte marcante da nossa história, reforce-se, tornar-se-á necessário, indispensável mesmo, que esse respeito se sinta intensamente, que essa história diga, verdadeiramente, alguma coisa a quem dela tem obrigação de a cuidar. Por isso e pese embora com muita mágoa, servi-mo-nos deste triste exemplo para alertar quem de direito para o estado lastimoso do nosso “Santo André” e alvitrar a sua rápida reabilitação para que possa ser apresentado com parte integrante de toda uma comunidade que à Faina Maior tem toda ou quase toda a sua vida intimamente ligada.

Relembrando: O Navio-Museu Santo André é um pólo do Museu Marítimo de Ílhavo. Fez parte da frota portuguesa do bacalhau e pretende ilustrar as artes do arrasto. Este arrastão lateral (ou “clássico”) nasceu em 1948, na Holanda, por encomenda da Empresa de Pesca de Aveiro. Era um navio moderno, com 71,40 metros de comprimento e porão para vinte mil quintais de peixe (1200 toneladas).

Nos anos oitenta surgiram restrições à pesca em águas exteriores que resultaram na redução da frota e no abate de boa parte dela. O Santo André não escapou à tendência. A 21 de agosto de 1997 foi desmantelado. O armador do navio, António do Lago Cerqueira, L.da (Pescas Tavares Mascarenhas, S.A.) e a Câmara Municipal de Ílhavo decidiram transformar o velho Santo André em navio-museu. Em agosto de 2001, o Santo André iniciou um novo ciclo da sua vida: mostrar aos presentes e vindouros como foram as pescarias do arrasto do bacalhau e honrar a memória de todos os seus tripulantes durante meio século de atividade…

Deixar este Polo Museológico ao abandono e exposto a verdadeiros actos de vandalismo, não será, certamente, uma forma bem conseguida de “mostrar aos presentes e vindouros como foram as pescarias do arrasto do bacalhau e honrar a memória de todos os seus tripulantes durante meio século de atividade”.

É necessário e urgente agir com firmeza e determinação para pôr fim a esta vergonha. E que tudo seja “Por Ílhavo”.

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