A Ti Maria Malha

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Ter, nos dias de hoje, padinhas de Vale de Ílhavo, quentinhas à porta às sete da manhã, para o pequeno almoço, como eu tenho, é uma dádiva do céu… o mesmo acontece com peixinho fresco às dez, para o almoço…

Neste caso, passa à minha porta quase todos os dias, a Dona Irene que na juventude dos seus 88 anos, vai trazendo aos fregueses o seu peixinho fresco…

E da parte que me toca, abençoada seja, pois tenho, por isso mesmo, comido mais peixe do que carne, coisa que, dizem os entendidos, enrija mais do que a carne.

A Senhora chega conduzindo a sua carrinha à velocidade de procissão, e buzinando de tal maneira, que até eu que sou mouco, ouço a milhas o chamamento. Há dias ao comprar-lhe sardinhas, lembrei-me da Ti Maria Malha, que como ela, tinha em tempos banca de peixe no mercado.

A Ti Maria Malha, era talvez, das mais castiças das “mulheras” a falar à “ibalho” e sempre que me lembro dela, vem-me à memória um episódio passado entre ela e um tio meu americano. Eu assisti deliciado… e foi assim:

– Eu chamava-lhe padrinho Manel… mas na verdade ele, não me era nada de sangue, era casado com uma tia da minha mãe e todos os familiares desse lado o tratavam assim. Era das pessoas mais extraordinárias que conheci e daquelas em que a minha consideração mais rejubilava…

Ora um dia, acompanhei-o ao Mercado de Ílhavo (o da Pala que Deus tem) e na peixaria, o padrinho Manel, junto à banca da Ti Maria Malha, começou a abrir as guelras a um carapau para lhe inspeccionar, como ele depois me explicou, o prazo de validade…

Aí ardeu Tróia, a ti Maria soltou-lhe os cães: “Éh, home, no me metcha do paxe, por amurdeus !”

O homem desfez-se em desculpas, valha-me Deus, que não se zangasse, pois não foi por mal, tinha as mãos limpinhas, como paga pelo pecado, ele levava-lhe o tal carapau e mais um quilo ou dois, pagava com nota graúda e ainda por cima ela podia ficar com o troco…

Depois desta promessa consumada e num ambiente já muito mais apaziguado, o padrinho Manel perguntou à Ti Maria Malha se lhe podia arranjar um pano ou um papel para limpar as mãos, ao que a saudosa Senhora, estendendo-lhe um trapo, lhe respondeu:

Tome lá… alimpe as mãos e alimpe tamém o pardau!

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