Um fogo que arde sem se ver

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Hugo Calão

Lembrando o incêndio deste 15 de abril, que destruiu grande parte do património da catedral de Notre Dame de Paris, alegadamente provocado por incúria nas obras de conservação e restauro em curso, tal como as pessoas, as obras de arte morrem.

Muitas vezes esquecemos que também elas são feitas de materiais orgânicos (madeira, papel, tecido) e, por isso, sujeitas à lei da ruína física, que decorre da fragilização das condições ambientais ou de circunstâncias fortuitas que contribuem para as degradar, arruinar ou, pura e simplesmente, destruir! O que coloca a urgência e prioridade do salvaguardar o Património Cultural e o Território-Ambiente, os dois alicerces da nossa identidade como povos.

É urgente valorizar e reconstruir o que se perdeu através das sucessivas intervenções arquitetónicas, no caso do património da Igreja da Gafanha da Encarnação, minimizar os estragos da demolição realizada em 1986, com muito pouco bom-senso, e que inutilizou os cinco altares de talha dourada do seu interior, reformulando em arquitetura moderna o único espaço de culto desta comunidade.

Recentemente, durante dois meses, de 15 de setembro a 15 de novembro de 2018, efetuou-se trabalho de levantamento de inventário do património da Paróquia da Gafanha de Nossa Senhora da Encarnação, Ílhavo, trabalho coordenado pela Diocese de Aveiro, enquadrado no Projeto Thesaurus – inventários de Bens Culturais da Igreja, e que contou com o apoio de uma equipa de voluntários da referida Paróquia. Atualmente o inventário da Paróquia da Gafanha da Encarnação conta com um total de 220 fichas, abrangendo 404 objetos localizados na igreja paroquial.

Como refere o Pe. João Vieira Resende, pároco nesta Gafanha da Encarnação, Joana Rosa de Jesus (de alcunha de seu avô, Joana Gramata, n.1788, f.1878) e seu marido, António dos Santos Pata, moradores nesta localidade, fizeram construir em 1848 na sua quinta, denominada Quinta do Mato Feijão, uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Encarnação. Esta primitiva e pequena capela seria de reduzida dimensão, não mais do que cinco metros de comprimento, albergando em destaque no único altar a pequena imagem de Nossa Senhora da Encarnação, imagem de roca com 47 cm de altura. Em 1877, a capela é ampliada até à dimensão de 12 metros e seria demolida em 1909, construindo-se uma igreja capaz de albergar o incremento crescente da população da Gafanha.  Em 1935 a pequena imagem da padroeira foi retirada de culto, adquirindo-se ao escultor José Ferreira Oliveira Thedim uma bonita imagem.

A primitiva imagem da padroeira julgava-se desaparecida até que, nesta ação de trabalho de campo de inventário, foi resgatada do entulho, dos muitos fragmentos e peças do antigo retábulo-mor, restantes da demolição de 1986. Para surpresa do atual padre Gustavo e restantes voluntários, primeiro apareceu a cabeça, o corpo, e depois os braços. As peças sobreviventes, muito deterioradas, serão agora sujeitas a uma intervenção de conservação e restauro que restitua a sua integridade, ação que será futuramente apresentada à comunidade.

Embora não sendo uma peça artisticamente superior, é um objeto de incalculável valor no campo afetivo e devocional, primeiro alento da fé das gentes desta Gafanha a si apelidada de Nossa Senhora da Encarnação. Fazemos votos este fogo que por vezes faz arder o nosso património seja controlado, em Paris, Portugal ou em Ílhavo, resgatando da morte certa o que é essencial proteger da nossa identidade.

 

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