Há coincidências extraordinárias. A maior de todas é o facto destas histórias surgirem sem qualquer relação com o Rádio Faneca deste ano que nos falou precisamente de sorte, superstição e enfim, coincidências. Ou talvez não seja acaso nenhum e tenha sido fruto da atenção. Talvez possa ter sido também por influência direta do Santo António que passou ou do São João que há de vir (à data em que vos escrevo, como numa carta que só chega depois de uma longa viagem).

Ora, no Festival Rádio Faneca, embalada pelo ritmo do trabalho e pela beleza dos momentos, não tive vagar para pensar suficientemente sobre o tema. Fiquei pelas conversas, pelas músicas e pelas pessoas. Que sorte é ter um Rádio Faneca à porta como quem tem um santo na mesinha de cabeceira.

Apesar disso, houve uma frase que me foi fazendo companhia durante o festival: a sorte é, sobretudo, uma questão de atenção. De facto, talvez a sorte não seja uma força misteriosa, mas sim a arte de reparar. E talvez a superstição, a devoção e até a fé sejam parentes próximas.

No outro dia ligou-me a minha mãe desconsolada a contar que a minha irmã, coitadinha, tinha perdido uma pulseira muito especial. Procuraram por tudo quanto é canto. Não se pense que é dor passageira, estas coisas são perigosas para cardíacos. À porta de casa uma vizinha relembra a minha mãe do método mais razoável de encontrar uma pulseira perdida – rezar o responso a Santo António.

Para já, diga–se de passagem, pobre Santo António que não tem nada de andar a levar com esta responsabilidade, mas, já que é santo, leva. Além de namoros e casamentos, ainda lhe entregam chaves, pulseiras, alianças… Que agenda apertada, não tem parança nesta eternidade. Principalmente no mês de junho. Depois uma pessoa não encontra o que quer e ainda o culpam.

Pois bem, no desespero, lá foi a minha mãe rezar o responso (mais por aflição, talvez, que convicção). Não é que a pulseira apareceu logo depois do jantar à beira da mesa que tinha o pé amarrado com um fio? (uma confusão entre santos e formas de encontrar objetos perdidos).

Uma coisa é de facto não acreditar, eu também não sou muito dada a crenças, outra coisa é não querer desafiar. Se temos ali um fiozinho guardado entre linhas de coser, porque não usá-lo como quem não quer a coisa, até sem comentar com ninguém, não vá o santo tecê-las? É português, com certeza, e muito ternurento. Se não funcionar, já estávamos à espera. Se de facto aparece, somos pessoas de muita fé. A crença por vezes também pode viver neste meio termo. Nem é uma convicção inabalável, nem somos descrentes. “Mal não há de fazer”. A razão é que fica a perder, ego e nome pelo menos.

Já nos dias anteriores, outra questão de sorte. O Cândido Costa pescou um peixe em direto para a televisão. Não é que seja um prodígio, quem pesca acaba por pescar, é como quem joga na raspadinha, mas foi à primeira e aconteceu mesmo ali à sombra do Santo António. Não me digam é que não nos lembra logo do 13 de junho e do “Sermão de Santo António aos Peixes” do Padre António Vieira. Vem muito a propósito nos tempos que correm: “vós sois o sal da terra”. Aquele peixe que o Cândido Costa pescou alguma coisa queria dizer aos telespetadores.

Somando a isto, acredito que aquele peixe tenha dado para alimentar numa grande tainada a ver a estreia de Portugal no Mundial de futebol. Eu não sei se há uma relação direta com o Rádio Faneca, a pulseira, o Santo António, os peixes, o Cândido Costa e a seleção portuguesa, mas também não me sinto preparada para afirmar categoricamente que não. Até porque, no momento em que vos escrevo, voltando novamente ao vosso passado meu presente, Portugal acaba de empatar com o Congo. Por isso, vamos continuar a acreditar. Há quem lhe chame atenção, há quem lhe chame coincidência, há quem lhe chame superstição e há quem lhe chame fé. Eu, por via das dúvidas, vou mantendo uma boa relação com o Santo António. Nunca se sabe quando voltarei a perder qualquer coisa, seja um objeto, seja o amor.

Publicado n’O ilhavense, nº 1400,
de 1 de julho de 2026.
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