No passado dia 8 de outubro, estive presente no RIEP – Reencontro Internacional de Educação Permanente, organizado pela APCEP – Associação Portuguesa para a Cultura e Educação Permanente, que se realizou no auditório da Casa da Cultura de Ílhavo.
No painel «Comunicação e Partilha», onde tive a oportunidade de partilhar o testemunho d’O Ilhavense enquanto instituição promotora da participação, da educação e da construção do espaço público, procurei centrar-me na ideia de que um jornal local como o nosso desempenha inevitavelmente uma função fundamental na partilha do imaginário.
Socorrendo-me de Benedict Anderson e do seu conceito de «comunidades imaginadas», segundo o qual a pertença a uma comunidade assenta também numa imagem partilhada dessa mesma comunidade, construída a partir das experiências, narrativas e representações que dela vamos acumulando, defendi que um jornal, fornecendo periodicamente histórias, recortes e imagens da vida da comunidade, contribui para construir nos leitores uma ideia de si enquanto grupo.
Quando comunicamos, engrenamos sempre esse mecanismo da partilha de imaginários. Escrevo, e as minhas palavras significam uma coisa para mim e, esperançosamente, uma coisa parecida para o meu leitor. Mas é no atrito que acontece entre o que significam para mim e o que significam para si que se inicia uma aproximação entre nós — tanto nos pontos em que nos encontramos como naqueles em que divergimos. Ora, um jornal é tanto mais rico quanto melhor trabalhar essa tensão entre as convergências e as divergências, entre o que é familiar e o que é novo, entre o que é passado e o que é futuro.
O tempo que vivemos é caracterizado pelo uso recorrente da palavra «partilha», mas essa partilha — a do algoritmo — tem trabalhado para a construção de espaços cada vez menos partilhados, onde nos encontramos sozinhos com as nossas ideias, sem atrito e sem desconforto. Mas o espaço público, a democracia, a vida em comum, fazem-se precisamente do oposto — do choque, do atrito, do contraste entre os nossos imaginários do que fomos, somos e queremos vir a ser.
Acredito que um jornal, como qualquer dispositivo de cultura e educação, tem também essa função de desestabilizar o imaginário, de fornecer novos dados, novos pontos de vista, que enriqueçam o modo como nos vemos.
É por isso que, no dia 23 de outubro, retomamos o «Quiosque da Memória», com a Quinto Palco, onde novos e velhos, naturais e recém-chegados, enfim, toda a gente, estará convidada a ler e conversar acerca da educação ao longo dos anos, à boleia das páginas do arquivo d’O Ilhavense.
O encontro está marcado para as 21h30, na Sala Polivalente do Centro de Documentação de Ílhavo.
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Publicado n’O Ilhavense, nº 1407,
de 15 de outubro de 2026.
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