Poucos séculos terão tido, logo no seu primeiro ano, um acontecimento tão definidor como aquele que teve este em que vivemos. Há 25 anos, a 11 de setembro de 2001, os dois aviões que atingiram as Torres Gémeas do World Trade Center, em Nova Iorque, deram início a um processo cujos efeitos continuamos a sentir diariamente.
Para a minha geração, que estaria a chegar à adolescência mais ou menos por essa altura, o 11 de Setembro foi um acontecimento fundador de uma consciência mais ampla do mundo e das suas políticas. A elevada mediatização que, apesar de mínima quando comparada com a de hoje, já nos colocava perante um ataque em direto e, na sequência, perante duas guerras ao vivo, no Afeganistão e no Iraque, habituou-nos desde cedo a conviver com a violência televisionada. Mas também a novidade de se definir um inimigo sem território definido, sem bandeira ou representação nacional — uma entidade difusa chamada «terrorismo» — nos colocou perante o contexto ideal para a torrente de paranoia e fantasmagorias nebulosas em que se tornou este milénio.
As imagens do 11 de Setembro nunca mais nos sairiam da memória. Mas, mais do que elas, ficou a sensação estranha de não entendermos bem de onde vinham. Cedo nos ofereceram uma cara, a de Osama bin Laden, mas, quinze anos depois da sua morte, percebemos que aquilo que ela representava vinha de um lugar muito mais difuso: não era um homem, um país ou sequer uma organização concreta que pudesse simplesmente desaparecer. Na sequência, as guerras do Afeganistão e do Iraque foram marcadas pelo recurso crescente a entidades militares subcontratadas para desempenhar funções que caberiam, tradicionalmente, às forças armadas de um Estado ocupante. Os 25 anos que se seguiram foram marcados por existências deste género: fragmentadas, sem cara e sem corpo definido. Quando falamos no tempo das fake news e da pós-verdade, não podemos esquecer que foi neste caldo de paranoia que encontraram fertilidade e espaço para crescer. E os desenvolvimentos políticos e tecnológicos dos últimos 25 anos dizem-nos que não se ficará por aqui.
Infelizmente, não creio que a consciência histórica da forma como todos estes fenómenos se foram desencadeando nos dê qualquer pista sobre como resolver os graves problemas que temos perante nós. Os esforços deste século parecem ter sido, demasiadas vezes, os de quem avança por ele tentando apenas ganhar tempo até que dias melhores apareçam. Não sei como, mas estou certo de que aparecerão. Ainda assim, passado um quarto de século, creio que ainda não encontramos o modo certo de os contar.
Publicado no nº 1405 d’O Ilhavense,
15 de setembro de 2026.
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