Escrevia Ezra Pound, no seu “ABC of Reading”, que a poesia atrofia quando se afasta demasiado da música. Talvez por isso, quer uma quer outra tenham experimentado uma vida tão fulgurante e desenvolta na voz de Jorge Palma.
Ocupando um lugar de fronteira geracional, entre os que se formaram na luta política e dela — por vontade própria ou não — nunca mais saíram e os que abraçaram com tudo os ventos pop que sopraram com a entrada na CEE, Palma tornou-se o poeta-cantor de uma melancolia que nunca nos abandonou, especialmente àqueles que sempre se terão sentido um pouco desfasados das narrativas nacionais. Se outros conseguiram imaginar e sintetizar um povo em movimento, Palma cantou sempre, como quem fala, para os solitários, os desapontados e os desenquadrados — ou seja, para todos nós.
É esse cantar como quem conversa com um amigo, que terá ido beber a vozes como as de Jacques Brel ou Leonard Cohen, que se singularizou e se tornou, de facto, numa voz tão íntima de tantos de nós que crescemos a ouvi-lo. A canção de Jorge Palma é sempre constituída da turbulência e da doçura de quem procura desesperadamente o conforto de chegar a casa e de encontrar companhia, de quem se vê do lado errado da noite, encostado contra um colchão errado. E que, por outro lado, não celebra essa espécie de marginalidade, nem a condena, nem a chora, propriamente; antes faz de toda essa experiência um canto que se dirige, decidido, ao mais fraterno dos encontros.
Muitos de nós teremos tido a sorte de estar presentes num desses encontros, diante de um palco onde, ao piano ou à guitarra, nos fez sentir uma chama invisível a incendiar- nos o peito. A última, no meu caso, aconteceu aqui em Ílhavo, há pouco mais de um ano, no Jardim Henriqueta Maia. Muitos de nós teremos tido a sorte de estar presentes num desses encontros, diante de um palco onde, ao piano ou à guitarra, nos fez sentir uma chama invisível a incendiar- nos o peito. A última, no meu caso, aconteceu aqui em Ílhavo, há pouco mais de um ano, no Jardim Henriqueta Maia.
Ao longo da nossa vida, cheia de mistério, de imponderáveis, de passados ininterpretáveis e futuros nebulosos, vai-nos acontecendo que, uma vez ou outra, uma coisa impossível nos faz acreditar. Pelas muitas vezes que essa coisa me chegou pela voz de Jorge Palma, aqui fica o meu abraço.
Publicado no nº 1406 d’O Ilhavense,
1 de outubro de 2026.
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