Era Abril ou Maio, pois lembro-me muito bem que eram favas com carne frita o que a minha avó lhe apresentava de merenda depois da lavração…

Enxugava meia dúzia de picheiras de vinho verde enquanto ia dando rombos ao conduto da travessa.

Depois fazia contas, saudava quem estivesse e… eche boi, para mais um ou dois fretes, que tanto podiam ser de carregamentos de areia ou de adobes para as obras, como outras lavradelas ou fresamentos.

O aido da minha avó, demorava para aí umas duas horas a lavrar, os meus anos meninos vestiam nessa altura a felicidade da tarde, ora catando cantarinhas  dos esteiros do arado, ora à boleia na grade de fresar onde ela também se colocava para fazer peso, tocando frequentemente  com uma vara comprida os pachorrentos bois entre os constantes

ehe boi… ó ai”,

esta cantilena para os corpulentos bichos era já desnecessária para o bom desempenho das suas tarefas… como por exemplo, aquela das paragens à porta das tabernas, automatizadas no tempo e no espaço, pela rotina vinhateira do seu dono… era mais um ritual de intimidade e de amor numa coreografia que eles sabiam já de cor e salteado…

Numa dessas tardes, segui com ele na boleia da carroça a caminho de um areeiro que havia nos Moitinhos, quase em frente à tasca da Ti Zulmira Marquesa… chegados ao Passadouro, paramos no beco do moinho do meu avô, de onde saia o seu empregado, o Mário Jaquino, com a motoreta rebocando um atrelado carregado de taleigos de farinha para entrega ao domicilio (há muito o cavalo Janota e a carroça eram saudade) parou junto ao meu bisavô Luís e ao Ti Zé Mónica, que conferenciavam acerca de algo… todos eles de repente se desbarretaram e quedaram-se mudos, o meu bisa encostou a porta que estava escancarada… ía passando um enterro… muita gente toda de preto… e de vez em quando alguém pranteava em soluços gritados de carpidura…

O “Ti António Pachacho” – Foto de Arquivo – Jornal “O Ilhavense”

Mal o rabo do cortejo por eles passou, mais três ou quatro a eles se juntaram e caminharam todos em direcção à adega do Ti Luís da Barbara, junto ao alpendre com a carroça de cabeçal ao alto a beijar as bandeiras do milho a espreitar das traves onde as canas dos feijões também dormiam. A adega era um espaço escuro e fresco, com o chão em terra batida e as pipas alinhadas e escoradas como relíquias de mosteiro, cuidadas por frades em nome da santidade.

Leia o artigo completo na edição em papel.

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