Rádio Faneca

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No primeiro, no segundo e talvez ao meio do terceiro mês de viagem, os domingos à tarde eram passados à soleira das portas de umas e de outras, os miúdos brincavam. As mãos nunca paravam, as roupas dos garotos precisavam sempre de uns remendos, um botão pregado, umas bainhas cosidas e nas calças dos rapazes as tradicionais joelheiras. 

As solteiras, aproveitavam todas as horas livres para encheram a arca do enxoval, eles eram lençóis brancos bordados, naperons de croché de linha fina e alguns panos de cozinha com picos de cores garridas. 

Com o passar do tempo, os domingos já eram todos segundas-feiras, as saudades já eram vividas em casa, tentando esquecer o quanto seria feliz e diferente se o homem e o pai estivesse em casa! 

Ao fim de cinco meses o primeiro domingo em casa com o pai, pela manhã iria ser estruturado para que tivessem tempo para fazer tudo. 

A missa na igreja matriz às onze, depois o almoço de domingo que dava o cheiro a toda a casa, o arrumar da cozinha enquanto alguns, pai e filhos fazem uma pequena sesta, e estava na hora de sair até ao jardim, era o dia que se fazia ouvir a Rádio Faneca! 

O cenário estava montado, pessoas sentadas nos bancos de madeira, outras andando devagar à volta do jardim enquanto os filhos corriam, gritavam uns com os outros e especialmente riam com tanta liberdade, os perigos eram poucos. 

A senhora Messias das pevides e dos tremoços, sentada num banquinho baixo e a cesta pousada no muro, e um pouco mais longe a barraca das farturas, isto tudo a rolar ao som das músicas saídas dos altifalantes que estavam colocados por entre as árvores do jardim… 

– Pai!… Hoje vamos dedicar uma canção à mãe, quando tu andas no mar ela até sonha em ouvir, o cantor é o Francisco José, e chama-se, ‘Teus olhos castanhos’…! 

E assim, o pai lá foi à cabine e dedicou o disco à sua família especialmente à sua Luísa. 

Ela nem cabia em si, cheia de chança, caminhava de braço dado ao lado do seu Artur. 

Os discos e os pedidos eram a atração de uma tar- de inteira da Rádio, salpicada de vez em vez da tradicional propaganda que ajudava na compra do espólio musical. 

A meio da tarde os garotos já começavam a repetir sempre o mesmo: 

– Pai, mãe já temos fome, já vamos lanchar? 

Isto duas ou três vezes, era hora de ir ao café, uns bebiam um garoto outros um sumo e o pai uma cerveja, tudo acompanhado com um bolo de arroz ou de feijão. 

Num instante a mesa ficava limpa, logo em casa a sopa do cozido iria aconchegar o estômago. 

A caminho de casa ainda se ouvia o som da Rádio, que belo domingo. Eram tão bons, os domingos com o pai em casa. 

Bem-haja, Rádio Faneca. 

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