Álvaro Garrido deixa Museu Marítimo de Ílhavo

A partir de janeiro, o docente e investigador, que estava ligado ao museu ilhavense desde 2001, vai dedicar-se exclusivamente à carreira académica na Universidade de Coimbra.

0
254

Ao fim de 18 anos de ligação ao Museu Marítimo de Ílhavo, onde foi diretor e, mais tarde, consultor, Álvaro Garrido está de saída. Uma partida “atempadamente anunciada e convenientemente preparada”, garante Fernando Caçoilo. Prova disso, justifica o presidente da Câmara Municipal, são “as revisões à estrutura orgânica da autarquia levadas a cabo em setembro e que resultaram na criação do Núcleo do Museu Marítimo” – uma unidade autónoma integrada na divisão da cultura e que responde diretamente ao presidente da câmara. “Em termos de ligação e dependência, é uma estrutura equivalente à do 23 Milhas”, explica o autarca.

Numa perspetiva de continuidade do trabalho desenvolvido por Álvaro Garrido, a direção deste novo núcleo vai ficar a cargo de Nuno Miguel Costa e Paula Salgueiro. Fernando Caçoilo garante que esta “não é uma solução provisória, mas sim a estrutura definitiva que queremos para o nosso Museu”. O presidente confia na experiência e no conhecimento desta dupla. “Estes dois técnicos foram os grandes braços direitos do professor Álvaro Garrido ao longo dos últimos anos e estão muito bem preparados. É neles que recai a aposta da Câmara Municipal”.

Nuno Miguel Costa é investigador do CIEMar desde 2012, tendo igualmente assumido funções ligadas à organização de colóquios, exposições e publicações para a divulgação do património marítimo local e de apoio à gestão do Museu. Paula Salgueiro, por seu lado, é conservadora no Museu Marítimo desde 1999. Há dez anos assumiu também funções de gestão administrativa e de recursos humanos na direção daquela instituição.

“Tenho muita honra no trabalho que fiz no Museu”

Depois de cerca de 18 anos envolvido no projeto do Museu Marítimo, Álvaro Garrido despede-se de Ílhavo, recordando com saudade os primeiros anos – “os anos mais fulgurantes” – em que havia muito trabalho para fazer. “O projeto era novo, mas queria afirmar-se rapidamente”. E assim foi. Em pouco tempo o Museu Marítimo de Ílhavo ganhava escala e prestígio nacionais, assim como um crescente reconhecimento internacional. O segredo, diz Álvaro Garrido, esteve sempre no “conjunto de pessoas muito generosas e capazes” da sua equipa, bem como nos executivos camarários, que saúda, nas pessoas dos dois presidentes de câmara com quem trabalhou – Ribau Esteves e Fernando Caçoilo.

Neste que é um momento de despedida, a avaliação do antigo diretor e consultor do Museu é “globalmente muito positiva”. “Foi uma história muito bem-sucedida. O Museu fez um grande trabalho ao nível da identidade do Município e toda aquela memória mítica e lendária da pesca do bacalhau foi aberta e democratizada, tornando-se cada vez mais inclusiva”, afirma Garrido.

Para um futuro próximo, Álvaro Garrido antecipa “um novo ciclo de protagonismo” para o Museu Marítimo. “Há que inventar um novo ‘contrato’ com a comunidade, capaz de prosseguir esse trabalho identitário e a valorização do património e da identidade marítima, não apenas de uma maneira fugaz que passe pelo divertimento, pela alienação e pelo lazer – como hoje acontece -, mas, sobretudo, pela dimensão da herança cultural e do pensamento”.

Garrido não vai assumir novo projeto em Lisboa

Nos primeiros dias de dezembro, alguma imprensa local terá sugerido que Álvaro Garrido abandonava o Museu Marítimo de Ílhavo para assumir a liderança de um novo projeto em Lisboa – o Bacalhau Story Centre. No entanto, Garrido nega-o e, lamentando a “notícia disparatada”, faz questão de partilhar com O ILHAVENSE a nota de esclarecimento que enviou àquelas redações.

Garrido explica que o que assumiu com as entidades promotoras do Bacalhau Story Centre foi “um compromisso de comissariado científico que implica a redação de alguns textos e a revisão de conteúdos. Nada mais do que isso”. O professor confirma ainda que “esse trabalho de autoria não terá qualquer regularidade nem significado institucional” e que se trata de um contributo semelhante a outros que tem dado “em idênticos temas, a várias instituições portuguesas e estrangeiras”.

O Bacalhau Story Centre – ou Centro da História do Bacalhau (Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, em declarações ao Público, diz não ter ainda a certeza se prefere o nome em inglês ou em português) – será uma das peças de um empreendimento de 27 milhões de euros para a requalificação da zona ribeirinha da capital. Este equipamento vai homenagear “um símbolo histórico, cultural e tradicional de um país que há muito pensa global”, devendo ficar associado ao navio bacalhoeiro Creoula que será reabilitado pelas câmaras de Lisboa e Aveiro, pela Marinha e pelo Ministério da Defesa.

“Não faz sentido uma duplicação de recursos”

Um centro interpretativo sobre a história do bacalhau associado a uma embarcação bacalhoeira – Não fosse a ausência de um aquário com bacalhaus vivos e o conceito pareceria tirado a papel químico da atual dinâmica museológica ilhavense: se, por cá, temos o Museu Marítimo, em Lisboa, funcionará um “Bacalhau Story Centre”; se, em Ílhavo, celebramos a faina no Navio-museu Santo André (um arrastão lateral da pesca do bacalhau), em Lisboa, o Creoula (antigo lugre bacalhoeiro) estaria aberto a visitas. As semelhanças são inegáveis.

Há cerca de dois anos e meio, aquando da abertura do Festival do Bacalhau, numa altura em que se começava a falar nessa hipótese de construção, em Lisboa, de um equipamento museológico dedicado ao fiel amigo, já Fernando Caçoilo alertava para o “erro evidente” que esse projeto denotava. Apesar de reconhecer uma “relação história daquele local [zona ribeirinha lisboeta] com a pesca do bacalhau”, tendo em conta que “era dali que partia a frota branca para a faina maior”, o autarca ilhavense não escondia que, na sua opinião, “não faz sentido uma duplicação de recursos”.

No entanto, e ao que parece, ao contrário do que inicialmente se falava, o Bacalhau Story Centre não vai ser exatamente um museu ou centro interpretativo, mas sim um espaço comercial com um restaurante e uma exposição permanente que marca a história do bacalhau na sua componente gastronómica. “Se realmente assim for, menos mal”, aceita Caçoilo.

Quanto ao Creoula, que também aparece associado ao projeto do Bacalhau Story Centre, a equação é muito simples: a Marinha não tem capacidade para investir os vários milhões de euros que se estima possa vir a custar a sua recuperação; a Câmara Municipal de Lisboa tem. E Fernando Caçoilo explica: “Com um investimento desta ordem, com a criação de um local de atracação exclusivo e o compromisso de sempre que o navio ali se encontra, estar aberto a visitas, implica que, “na prática, o navio é como se passasse a ser propriedade da câmara de Lisboa”.

Ílhavo ainda pode ter uma palavra a dizer: “Ainda está em cima da mesa a hipótese do Município de Ílhavo entrar no capital dessa reparação, mas é evidente que depende dos números e das contrapartidas”, assegura o presidente. “Ílhavo não tem a dimensão e a capacidade financeira de outras autarquias para pegar num projeto com estes milhões todos” alerta, reconhecendo ainda que, “se Ílhavo tiver de investir meio milhão ou um milhão de euros na reparação de um navio que só cá vem de vez em quando, tenho sérias dúvidas que valha a pena”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Introduza o seu comentário
Introduza o seu nome