A Terra Nova, como nunca a vimos, no grande ecrã

No ano do centenário do nascimento do escritor Bernardo Santareno, chega aos cinemas um filme inspirado nas suas obras sobre os pescadores da faina maior. Adaptado e realizado por Artur Ribeiro e com produção de Ana Costa, “Terra Nova” tem estreia marcada para o próximo dia 19 de março.

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Corria o ano de 2015 quando o Museu Marítimo de Ílhavo recebeu dois visitantes muito especiais. Nicolau Breyner, figura maior da televisão e do cinema portugueses, e Artur Ribeiro, realizador e argumentista com vários trabalhos em cinema e televisão, vieram a Ílhavo no âmbito da pesquisa para um novo projeto: adaptar a peça “O Lugre”, de Bernardo Santareno, para o cinema.

A ideia inicial era Artur escrever o guião e Nicolau realizar o filme. À entrada para 2016, o argumento estava escrito, mas Nicolau viria a falecer em março desse ano sem terminar o projeto. Amiga de ambos, a produtora Ana Costa desafiou Artur a tomar em mãos a realização do filme em memória de Nicolau.

Filmagens em alto mar

Havia duas abordagens possíveis para produzir um filme tão ambicioso como este: ou se filmava em estúdio e em doca, com recurso a efeitos especais, ou ia-se para o mar. O realizador Artur Ribeiro nunca teve dúvidas. “A minha abordagem com a Ana Costa [produtora do filme] sempre foi no sentido de conseguir o máximo realismo”, já que isso “ajudaria os atores a incarnar as personagens e a transmitir naturalidade em todas as suas ações”. Assim, desde logo o plano foi embarcar num antigo navio bacalhoeiro e passar algumas semanas em mar alto.

Por coincidência, o lugre Santa Maria Manuela ia estar, nos finais de agosto de 2018, na Noruega. Era a oportunidade ideal. Equipa técnica e elenco acabariam por embarcar em Tromsø, no norte da Noruega, rumo à Holanda. Foram vinte dias no mar, a viver e a filmar a bordo do Santa Maria Manuela. Artur Ribeiro recorda a experiência como “essencial” para aquilo que viria a ser o filme. “As dificuldades com que lutámos, embora mínimas em relação às condições que se viviam a bordo nos tempos da faina maior, ajudaram a que todos ganhassem um respeito ainda maior pelo mar e a que os atores compreendessem melhor as personagens que estavam a interpretar”.

Tivesse Nicolau tido essa oportunidade e, muito provavelmente, a opção teria sido outra. “Conhecendo bem o Nico [Nicolau Breyner], e sabendo como ele não gostava de frio, tenho quase a certeza que ele não planeava filmar como nós acabámos por fazer, acima do Círculo Polar Ártico”, julga Artur Ribeiro. Mesmo assim, o realizador acredita que Nicolau “ficaria muito satisfeito com o trabalho dos atores, agradavelmente surpreendido com o realismo e abordagem aventureira que fizemos e contente com o resultado final”.

Para além da sua paixão pelo mar, o que mais entusiasmava Nicolau Breyner neste projeto era, precisamente, “o potencial que um guião criado a partir de ‘O Lugre’ tinha para o trabalho dos atores”. Também para Artur, “ter personagens fortes, que carregam o filme às costas” foi prioritário.

Quanto ao elenco, a rodagem deixou memórias para a vida. Que o diga o jovem Miguel Partidário que, no filme, dá vida a um frágil e inexperiente “verde” e para quem “Terra Nova” foi o primeiro filme da carreira.

O realizador lembra ainda um episódio, logo no primeiro dia de filmagens, em que, além de o mar não ter permitido filmar um único plano, um dos dóris naufragou e tiveram de resgatar um ator – João Catarré, que interpreta Zé Sol – das águas. “Nesse momento, olhei para as caras dos outros atores que seguiam os acontecimentos do convés e percebi claramente que aquela experiência foi o melhor que podia ter acontecido para começar as filmagens, com a plena consciência que é o mar quem manda e que aquelas personagens viviam à sua mercê”, conta Artur Ribeiro.

“A última epopeia trágico-marítima”

“Terra Nova” traz para o grande ecrã o que muitos consideram “a última epopeia trágico-marítima de Portugal”. Mas, como pode ler-se na sinopse, “este filme não é um documentário sobre a pesca do bacalhau: é um drama humano”. “Terra Nova” parte de uma realidade – a faina maior -, mas “acaba por ser também um ensaio psicológico sobre os extremos a que o ser humano pode chegar quando confinado num só espaço e rodeado por perigos e pelo desconhecido”, explica Artur Ribeiro.

Para além de o dirigir, foi Artur quem escreveu o argumento para o filme. A obra de Santareno serviu como porta de entrada para aquele universo e aquele tempo. Tal como o médico bacalhoeiro e dramaturgo, à partida para esta jornada, Artur era “uma pessoa de fora, fascinada e assombrada pela dimensão daquela experiência humana”.

A peça “O Lugre” e as suas personagens são “o miolo” de todo o filme. No entanto, Artur decidiu não só acrescentar uma nova personagem a bordo – um médio/cronista inspirado no próprio Santareno e interpretado por Vítor D’Andrade – como imaginou um novo enredo. “Terra Nova” conta, então, a história de um lugre bacalhoeiro com o mesmo nome quando, num mau ano de pesca, o Capitão Silva, personagem de Virgílio Castelo, decide arriscar numa rota nunca antes navegada até aos bancos gelados da Gronelândia. As dificuldades e tensão a bordo ganham novas proporções e, apesar de liderar o navio com pulso de ferro, o Capitão não consegue evitar um motim que compromete o objetivo da viagem.

Só mais tarde, por via de Nuno Côrte-Real, responsável pela composição e direção musical do filme, e bisneto do capitão ilhavense João Cajeira, é que Artur soube da verdadeira história sobre a primeira viagem dos pescadores portugueses à Gronelândia, liderada, curiosamente, pelo bisavô de Nuno.

O primeiro bacalhoeiro português nos mares da Gronelândia

No início dos anos de 1930, quando o peixe começou a escassear nos mares da Terra Nova, tornou-se urgente procurar outros bancos onde houvesse abundância de bacalhau. Só assim, os carregamentos dos lugres poderiam compensar as enormes despesas feitas pelos armadores. Quase todas as empresas encontravam-se arruinadas e a indústria do bacalhau, com mais dois ou três anos maus, ver-se-ia obrigada a terminar a sua atividade.

Os rumores de que os navios de pesca dinamarqueses e faroés faziam muito boas pescarias nos bancos da Gronelândia levaram o armador Egas Salgueiro, gerente da Empresa de Pesca de Aveiro, a contratar o capitão ilhavense João Cajeira para a arriscada missão de ir pescar sigilosamente aos mares gelados da Gronelândia.

Navegando só à vela, sem cartas dos bancos, desafiando o desconhecido, campos de gelo e meteorologia imprevisível, Cajeira e a sua tripulação aventuraram-se por aqueles mares. Antes deles, nenhum português o havia feito.

No ano seguinte, o capitão Cajeira liderou uma frota de quatro navios rumo aos bancos da Gronelândia, onde encontraram grande fartura de bacalhau. Todos regressaram a Portugal de “convés na água”, ou seja, completamente carregados.

Capitão João Cajeira

Santareno, o “provocador”

Aos poucos, a sociedade portuguesa parece estar a despertar para a herança cultural e para as memórias da pesca do bacalhau. Esse património material e imaterial tão profundamente relacionado com Ílhavo e com os ilhavenses tem vindo a suscitar o interesse de criadores nacionais nas áreas do cinema, da literatura e das artes performativas. A viagem intensa, aventureira e trágica retratada neste “Terra Nova” é disso mais um exemplo.

Embora a pesca do bacalhau tenha vivido o seu auge nas décadas de 1940 e 1950, numa altura em que a atividade gozava de um estatuto de proteção nacional e era parte fundamental da máquina propagandista do Estado Novo, a verdade é que a expressão literária da faina maior foi “modesta”. “Encontramos ‘Os Grandes Trabalhadores do Mar’, um conjunto de crónicas de viagens de Jorge Simões, o célebre ‘A Campanha do Argus’, do australiano Alan Villiers, encomendado pelo regime, as obras de Bernardo Santareno e pouco mais”, enumera o historiador Álvaro Garrido, especialista na história marítima e da pesca. Para o também antigo diretor e consultor do Museu Marítimo de Ílhavo, Santareno, “autor das duas obras literárias mais interessantes [sobre a pesca do bacalhau]” – “Nos Mares do Fim do Mundo” e “O Lugre” – tem “um valor injuntivo”.

Com o incentivo de Garrido, o Museu Marítimo de Ílhavo foi a primeira instituição em Portugal a regressar à obra de Bernardo Santareno, a reciclar as suas narrativas e a devolvê-las à sociedade com a devida contextualização crítica. Na opinião do investigador, a riqueza do “fenómeno Santareno” pode explicar-se, essencialmente, em três pontos: primeiro, a obra, é “literariamente muito boa”; segundo, o autor “conjuga a narrativa com um importante testemunho documental”, fruto da sua experiência de embarque e de contacto com as tripulações; por fim, há que ressalvar a “força dramática das obras”. Garrido considera mesmo que a peça ‘O Lugre’ é “uma das obras primas do teatro português”.

Apesar disso, na conjuntura que se vivia em Portugal à época do seu lançamento, estes trabalhos de Santareno acabaram por não ser bem-recebidos. “[Os relatos] inquietavam a oligarquia corporativa porque levantavam questões como a indisciplina a bordo, a violência ou a dureza do trabalho. Eram retratos de anti-heróis do mar”, explica Garrido. O historiador é da opinião que as obras de Santareno “não eram de oposição ao regime, nem sequer registos deliberadamente políticos”. “Eram, sim, obras provocatórias e que tinham a sua própria agenda reflexiva, intimista, sobre as mais profundas inquietações humanas e que não estavam minimamente alinhadas com a épica balofa do Estado Novo”.

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