Assinala-se este mês o 10.º aniversário da requalificação do Santa Maria Manuela

Navio histórico foi recuperado por iniciativa de uma empresa ilhavense, a Pascoal. Este mês completam-se dez anos da inauguração do “novo” Santa Maria Manuela.

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Santa Maria Manuela

2 de maio de 2010. O que muitos julgavam impossível aconteceu. O Santa Maria Manuela entrava pela barra de Aveiro adentro, exibindo o fulgor de outros tempos. Da época em que cruzava o oceano na epopeia da pesca do bacalhau. Depois de ter estado mais de uma dezena de anos a aguardar por uma recuperação que teimava em não acontecer, o antigo lugre acabava de ganhar uma nova vida, precisamente na altura em que se preparava para comemorar mais um aniversário – o Santa Maria Manuela e o Creoula foram lançados à água a 10 de maio de 1937. A sua requalificação, encetada pela empresa ilhavense Pascoal, estava, assim, concluída e a festa de inauguração nem podia acontecer noutra data: 10 de maio. 

Exatamente no mesmo dia em que comemorou o seu 73.º aniversário, o Santa Maria Manuela deu início à sua segunda vida, dedicada ao turismo de vocação marítima. A festa, ocorrida a 10 de maio de 2010, na Gafanha da Nazaré, teve a pompa e circunstância que lhe era devida, reunindo as mais diversas entidades locais e regionais, bem como o secretário de Estado do Turismo de então. Estava, assim, concretizado um sonho, partilhado por muitos ilhavenses – e portugueses em geral – e especialmente sentido pela administração da Pascoal.

Nesta altura em que se assinala o 10.º aniversário da requalificação do Santa Maria Manuela – entretanto vendido a uma empresa do universo Jerónimo Martins -, o jornal O Ilhavense recupera parte do discurso proferido por Aníbal Paião no dia na inauguração do navio. Uma alocução na qual fez questão de recordar todos aqueles que contribuíram para tornar aquele sonho realidade, enumerando todo o caminho que foi preciso trilhar ao longo de três anos. Desde março de 2007, altura em que a Pascoal adquiriu o navio, e maio de 2010, quando a sua recuperação ficou concluída. 

“Desde Março de 2007 até Dezembro de 2008, o navio permaneceu na Navalria para reparação geral do casco, trabalhos de aço, pinturas, instalação de mastros e molinete. Deixou o Porto de Aveiro a reboque no dia 28 de Dezembro desse ano para acabamento na Factoria Naval de Marin. […] Chegado a Marin, começou a grande azáfama de acabamento geral do navio, instalação de todos os equipamentos, sistemas e provas”, enquadrava o administrador da Pascoal. 

“Esta nova versão do Santa Maria Manuela procurou, em moldes atualistas, manter a traça original do navio observando as mais exigentes regras de segurança e classificação. O aspeto geral exterior, nomeadamente ao nível de mastros e plano vélico, é bastante semelhante ao original e até a própria organização do convés é bastante depurada. A propulsão é efetuada através de 2 motores de 373 Kilowatts com caixa redutora dupla e hélice de pás reversíveis.

O navio dispõe ainda de ar condicionado em todos os compartimentos, tem capacidade para produzir 30 tons de água por dia e recicla todos os resíduos gerados”. 

Quase 8,5 milhões de euros de investimento

“O investimento total na recuperação do Santa Maria Manuela foi de 8.400.000€. No início de 2009 apresentámos uma candidatura a apoio que viria a ser aprovada pelo QREN através do Programa Operacional Regional Fatores de Competitividade no âmbito do Sistema de Incentivos à Inovação e contratualizada com o Turismo de Portugal em 15 de Junho. O montante considerado elegível do investimento foi de cerca de 7.400.000€ com um incentivo de 45% em regime de capital reembolsável sendo o restante suportado por meios libertos na Empresa e financiamento bancário”, referia, na ocasião, Aníbal Paião. 

“Este projeto foi considerado suscetível de contribuir para a inovação do tecido empresarial no âmbito dos projetos de produção de novos bens e serviços, de adoção de novos processos e de expansão de capacidades em atividades com dinâmicas de crescimento. Foi assim oficialmente criada uma nova área de negócios na Pascoal: a prestação de serviços na área do Turismo. Trata-se, contudo, de um tipo de turismo inovador que designamos por turismo cultural de vocação marítima que potenciará também as sinergias advindas das atividades da empresa no seu relacionamento com o mar, sempre numa perspetiva cultural, quer falemos de turismo aventura, natureza, de enquadramento histórico ou científico. Serão sempre viagens temáticas com participação ativa na vida de bordo de todos que procuram um tipo de turismo alternativo”. 

Dois agradecimentos especiais

Entre as várias entidades e personalidades destacadas pelo administrador da Pascoal, houve dois nomes que mereceram especial destaque: António Marques da Silva e António São Marcos. 

“Comecemos pelo Sr. Capitão Marques da Silva a quem me unem especiais laços de amizade herdados da família e da especial circunstância do Sr. Capitão ser um dos oficiais prediletos do meu avô Almeida Paião, capitão do Creoula e do Argus apenas para citar dois dos navios emblemáticos que comandou. Mas esta amizade ganhou autonomia porque este senhor foi-me estragando com gentilezas durante todos estes anos. Detentor de extraordinários conhecimentos técnicos sobre navios de vela e navegação e com uma notável memória, desde logo se disponibilizou para ajudar em tudo quanto fosse necessário.  E se foi necessário! A sua experiência como coordenador técnico da transformação do Creoula mostrou-se de enorme valia para o nosso projeto e para o apoio sempre pronto ao comandante António São Marcos […]”, realçou. 

A António São Marcos, “um dos mais brilhantes oficiais da Marinha Mercante Portuguesa”, que “foi para o mar por vocação e ainda fez em 1973 a última viagem do Creoula à linha”, Aníbal Paião agradeceu, acima de tudo, “o extraordinário trabalho de dedicação, quase obsessiva, que o Comandante António São Marcos colocou ao serviço da recuperação do Santa Maria Manuela.

Enorme satisfação e realização pessoal, bom gosto, excelente capacidade de comando e que delicia vê-lo a conversar, e quantas vezes a acatar, os reparos e sugestões do meu pai e do Capitão Marques da Silva. Quero publicamente louvar o Comandante António São Marcos e manifestar-lhe também a minha enorme gratidão pelo extraordinário trabalho desenvolvido sem o qual não teria sido possível concretizar este projeto neste espaço de tempo e sobretudo, com esta qualidade”.


“Um imperativo de consciência”

“Tenho percurso de vida ligado a estas vivências mas, e sobretudo, à pesca do bacalhau à linha em dóris de um só homem, à Faina Maior, como lhe chamamos em Ílhavo tendo até como móbil da minha participação cívica, trabalhar em prol da cultura marítima portuguesa especialmente no Museu Marítimo de Ílhavo onde tenho a honra de pertencer à Direção dos Amigos do Museu, porto seguro do projeto SMM. Sei bem dar valor ao que foi esta dura actividade que se transformou num modo de vida!”, explicava, na altura, Aníbal Paião. 

“E é por isso que boa parte do meu sonho de não deixar perder o SMM se deve a um imperativo de consciência de dedicar o meu trabalho e esforço ao meu pai e a todos os meus familiares, homens do mar, simbolizando neles todos aqueles que foram para a pesca do bacalhau à linha, do capitão ao moço, de Caminha à Fuzeta e aos Açores, os que foram obrigados, os que apenas foram na perspetiva mercantilista, aos ‘gálicos’, aos ‘faz peixe’, aos atrevidos para o mar e aos remediados e até os que tiveram que chegar à reforma para perceber que andaram enganados toda a vida”. 

“A todos quero homenagear, em espaço vivido”, destacava, “fazendo apelo aos sentimentos e à memória, cumprindo um sonho, mas também retirando as consequências das minhas convicções e daquilo que venho reafirmando há muitos anos: Portugal encontrará novamente um caminho de progresso e um novo modelo de desenvolvimento que seguramente não deixará de ter na economia marítima um dos seus pilares fundamentais. Ao mar, quer os homens dos regressos virtuais queiram ou não, regressa-se de navio. Diz o velho ditado que ‘quem vai ao mar prepara-se em terra’ mas, o mar, o mar de Portugal começa das praias para fora, ocupa-se, frequenta-se, estuda-se, não se lhe perde a memória e os significados enfim, deve materializar-se com tempero de sonho, honrando a nossa História!”.

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