Nova vida para o ‘Bispo do Mar’

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Por Rodrigo Leite

Em pleno processo de requalificação do espaço urbano central de Ílhavo, iniciado em Maio deste ano, uma das decisões da Câmara Municipal de Ílhavo foi a de alterar a localização da estátua do Bispo D. Manuel Trindade Salgueiro de onde esteve desde a sua inauguração, em 1969, no Jardim Henriqueta Maia, num local mais vulgarmente conhecido por ‘largo do bispo’, para uma nova zona que vai nascer no local onde estava situado o antigo quartel dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo. Nessa nova área vai ser criada uma zona ajardinada, que vai servir de antecâmara para o novo Museu de Arte Sacra, que irá ocupar uma parte do antigo quartel, que ainda vai ser acolher um pequeno auditório, uma pequena loja para ser utilizada por associações locais, entre outros.

Para o Presidente da Câmara Municipal de Ílhavo, Fernando Caçoilo, a mudança da estátua do bispo foi uma decisão óbvia tomada já há algum tempo. “Em face da reformulação da zona central da cidade, decidiu-se mudar a estátua do bispo para um local que nos parece óbvio em termos de enquadramento com a própria Igreja Matriz”, começa por afirmar o autarca revelando que em conversas com a Paróquia, com a Igreja e com a Junta de Freguesia, “todos foram unânimes que a mudança talvez fosse positiva”.

Para Fernando Caçoilo, a reformulação no centro de Ílhavo vai servir para uniformizar a linguagem urbanística, já que “havia uma mescla de arranjos e arranjinhos”, sendo agora altura de “criar aqui uma linguagem única, desde a ex-109 até à Malhada. Criar aqui um corredor verde em que as pessoas se revejam”, e nesse seguimento, a mudança do bispo “poderia ser uma mais valia, porque também limpava uma zona de uma praça que pode ser uma praça de eventos. Mais limpa, mais arejada e sem qualquer tipo de obstáculos no meio.”

“Naquele recanto, o bispo tem uma ambiência lógica do seu posicionamento”, considera o Presidente da Câmara de Ílhavo, indo de encontro às ideias do arquitecto responsável pelo projecto de Requalificação do Espaço Urbano Central de Ílhavo – Jardim Henriqueta Maia, José António Paradela, que considera que houve uma necessidade de dar utilidade ao espaço resultante da demolição do antigo quartel, nas traseiras da Igreja Matriz de Ílhavo. “Surgiu-me desde o princípio a ideia de meter ali algum elemento artístico e no arranjo mais vasto do jardim, havia um problema que era a relocalização a dar ao largo do bispo”, avança o arquitecto ilhavense, explicando que com o novo largo “a estátua do bispo ficava obstruíndo um dos lados do jardim”, tornando muito difícil a utilização do novo largo para grandes espetáculos e eventos.

José António Paradela considera que a mudança da estátua do Bispo D. Manuel Trindade Salgueiro para o novo espaço onde estava situado o antigo quartel dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo veio trazer “o elemento artístico de excelência” que procurava para aquela zona, “porque juntava à sua presença, a presença do seu espólio, que ofereceu à Igreja”, dos quais fazem parte “a cruz peitoral e algum mobiliário que lhe pertencia, que neste momento não estão expostas, mas que vão passar a estar expostas” no Museu de Arte Sacra, formando “um núcleo mais afecto ao bispo”, justificando desta forma a relocalização da estátua do bispo para o novo sítio.

“Dar utilização ao espaço com uma entidade que diz todo o respeito àquela Igreja”, termina o arquitecto, explicando que essa é a justificação da escolha do novo espaço para a estátua do Bispo D. Manuel Trindade Salgueiro.

O Presidente da Câmara Municipal de Ílhavo confirmou ainda que a escolha do arquitecto José António Paradela para este projecto foi uma escolha óbvia. “É um arquitecto que nasceu aqui, brincou naquele espaço, conhece aquele espaço. É um homem que continua com ligações à sua terra, culturais e afectivas” afirmou Fernando Caçoilo, explicando que por isso foi “a pessoa ideal para pegar naquele espaço e revolucionar no bom sentido.”

O autarca ilhavense confessou ainda que no início do projecto se mostrou mais conservador do que o próprio arquitecto. “Ele disse desde a primeira hora que este espaço tinha uma mistura de conceitos que era preciso uniformizá-los e convenceu-me claramente desta questão. Hoje, estou confortável com o desenho urbano”, concluiu Fernando Caçoilo.

“Aquele é o largo do bispo!”

No entanto, nem todos concordam com a relocalização da estátua do bispo. Sérgio Lopes, líder da concelhia do PS de Ílhavo, refere que “a Câmara, ao longo das diversas fases do projecto, foi escondendo o jogo sobre a localização da estátua, talvez porque antecipasse que uma parte significativa da população se sentiria desconfortável com a mudança de localização da estátua”.

Para Sérgio Lopes, “todos nós nos identificamos com aquela localização, e no futuro, todos nós vamos continuar a chamar àquele largo, o largo do bispo, sem que a estátua ali esteja”. O líder da concelhia do PS de Ílhavo acusa ainda o executivo camarário de descaracterizar o centro de Ílhavo. “O centro de Ílhavo não tem identidade nenhuma. Nós já tivemos o Mercado Municipal em três sítios diferentes, o Jardim Henriqueta Maia já vai na terceira ou na quarta configuração”, afirmou o líder socialista, reforçando a ideia de que o ‘largo do bispo’ faz parte da identidade da comunidade ilhavense. “Nas últimas décadas, se há coisa que restou na nossa comunidade e na nossa identidade é que aquele largo é o nosso largo. É o largo do bispo. E vai deixar de ter o bispo. É bizarro. São as bizarrias das intervenções das requalificações constantes das requalificações do centro”, concluiu.

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A história do ‘Bispo do Mar’ e uma ‘gaffe’ esquecida

Foi no dia 29 de Dezembro de 1968 que Ílhavo homenageou D. Manuel Trindade Salgueiro, através da inauguração de uma estátua em sua honra, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida. O ‘Bispo do Mar’, como ficou carinhosamente conhecido, ganhou este nome por ter contribuído para a construção da antiga Escola de Pesca, do Bairro dos Pescadores e do Centro Paroquial, para além das suas conhecidas Missas campais e de dirigir a Benção dos Navios Bacalhoeiros, em frente aos Jerónimos, em Belém, Lisboa.

Nascido em Ílhavo, a 28 de Setembro de 1898, D. Manuel Trindade Salgueiro, dedicou toda a sua vida à Igreja e aos estudos religiosos, sendo nomeado Bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, em 1941. Em 1949 tornou-se Arcebispo de Mitilene e acabou ainda por ser nomeado Arcebispo de Évora, em 1955. O ‘Bispo do Mar’ faleceu em Ílhavo, no dia 19 de Setembro de 1965.

Naquele domingo, foram várias as personalidades, ligadas à política e à Igreja, que marcaram presença na homenagem ao ‘Bispo do Mar’. Desde o Presidente da Câmara ou o Governador Civil de Aveiro, ao Cardeal Patriarca de Lisboa e a vários ministros e até o então Presidente da República, o almirante Américo Thomaz, esteve presente na inauguração da estátua de D. Manuel Trindade Salgueiro.

Segundo algumas histórias, ou estórias, antigas sobre esse dia, ocorreu uma ‘gaffe’ que ficou escondida da história de Ílhavo, mas que os mais velhos, que marcaram presença e ainda se recordam daquele dia, não deixam esquecer. Rezam essas histórias que a estátua do ‘Bispo do Mar’ deveria ter ficado virada para o mar, sendo que na realidade, ficou exatamente de costas voltadas para o mar. Há quem diga que no decorrer de alguns discursos, inclusivamente, no discurso do Presidente da República, o almirante Américo Thomaz, o facto da estátua estar virada para o mar foi exultado e celebrado, provocando alguns risos, em surdina, de quem percebeu que a estátua estava na realidade virada de costas para o mar.

São pequenas lembranças engraçadas de quem marcou presença naquele dia de festa, que foi a inauguração da estátua em homenagem a D. Manuel Trindade Salgueiro, que ajudam de alguma forma a relativizar a discussão actual sobre o local onde a estátua deverá estar.

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