Aos 83 anos, Paul McCartney editou um novo disco intitulado “The Boys of Dungeon Lane”. Além de atestar a notável vitalidade e inesgotável inventividade do beatle, é um registo que reflete a nostalgia dos primeiros dias da sua juventude interrompida pela fama global. O título remete para uma pequena rua de Liverpool e a generalidade dos temas reflete sobre a sua juventude nessa cidade portuária.

É frequentemente citada a importância dessa característica do local de onde partiram Paul, John, George e Ringo – o facto de ser uma cidade portuária – para a formação dessa força singular que é a música que produziram. De facto, não só o facto de serem todos descendentes da migração irlandesa, mas também o de terem crescido com as influências musicais norte-americanas que chegavam por via marítima mais rapidamente a essa cidade e terem tido a experiência da movida noturna típica de uma cidade portuária, marcada sempre por um certo cosmopolitismo boémio, terão sido importantes.

Mas o facto de um fenómeno de dimensões tão significativas partir de uma cidade relativamente pequena e periférica tem também algo a dizer-nos sobre a natureza destes lugares. É que quem cresce neles imagina-se sempre perante um mundo imenso por descobrir, sobre o qual alimenta uma curiosidade insaciável. Ao contrário de quem pensa nascer nos grandes centros do mundo, plenamente satisfeito pela ideia de que tudo se encontra nos limites do seu código postal, quem cresce fora desses lugares vê o mundo como ele é: diverso, infinito e fascinante.

Por outro lado, não deixa de ser curioso que o maior fenómeno cultural da globalização seja tão marcado pela identidade de uma pequena cidade. Ao contrário do que é comum em quem se quer tornar “global” e, para isso, faz por apagar todos os traços de origem, de localidade, todos os sotaques e marcas de “provincianismo”, encontramos nos Beatles (e em particular em McCartney) um constante regresso a casa, às tias, ao chá e à relva de Liverpool.

McCartney chega assim aos anos finais da sua vida evocando o lugar onde cresceu. Aliás, evocando uma muito discreta ou aparentemente insignificante rua desse lugar. No fim das contas, nunca deixamos de ser quem fomos aos 15 anos, com os nossos amigos, a entreter os tempos livres e a fascinar-nos com o que o mundo haveria de ser. É esse também o encanto de crescer em lugares relativamente pequenos, periféricos e curiosos como este. E é sobretudo isso que faz andar o mundo.

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Publicado no nº 1399 d’O Ilhavense,
de 15 de junho de 2026.
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