O ano letivo começou. As portas das Escolas, fechadas há 6 meses, abriram-se e o movimento, os ruídos, os cheiros, todos os indícios próprios daquela vida reentraram, enchendo os espaços até então vazios.

Nos vários canais televisivos, passam visitas dos governantes a Escolas, afirmando que no início deste ano letivo, tudo decorreu bem, dentro da normalidade possível. O Governo garante que, atempadamente, seguiram normas de conduta, apoios, testes, material individual de proteção. Foi possível concretizar o desfasamento de horários de entradas e saídas dos alunos para evitar congestionamentos. Houve reforço de pessoal auxiliar.

Por outro lado, os Sindicatos de Professores e Associações de Pais queixam-se da falta de informação e preparação dirigidas às Escolas, alertando para todos os perigos que daí advêm. Apontam falta de pessoal auxiliar e falhas significativas a vários níveis.

Por todo o país, constata-se que o número de infetados continua a aumentar e a anunciar o perigo da chegada de uma nova vaga de infeções que poderá colocar em risco a resposta dos serviços de saúde.

Uma semana após a abertura do ano letivo, O Ilhavense foi a Escolas do Município conhecer a realidade local.

No Agrupamento de Escolas da Gafanha da Encarnação encontrámos uma Diretora calma e confiante que nos recebeu, cumprindo as normas de segurança.

Diz-nos: “Fizemos tudo aquilo que achávamos necessário. Preparámos as salas, dispondo as mesas com distanciamento, inscrevemos as sinaléticas no chão de forma a orientar os alunos para evitar choques e atropelos. Mas estamos no início, vamos tendo que ajustar diariamente.”

Estranhámos: Mas as normas vindas do Ministério e da Delegação de Saúde não são precisas e claras?

Após alguma hesitação confessou: “Bom, as normas do Ministério vieram tarde e pouco precisas. Por exemplo, as relacionadas com a Educação Física não falam nos Balneários… E as da Delegação de Saúde…só começaram a chegar na semana passada. Fomos preparando tudo de acordo com o que julgávamos mais correto”

Continuámos a falar dos balneários de Educação Física. “Só temos quatro, diz-nos Ana Caiado, dois para rapazes e dois para raparigas. Embora as turmas sejam pequenas… torna-se difícil gerir isto”.

Turmas pequenas? Questionamos. Pelo menos isso conseguiram. “Ah já era habitual”, responde. “Sempre tivemos este número porque distribuímos por todas as turmas os alunos com alguma deficiência o que obriga a que tenham um número reduzido. Não podemos é juntar 3 professores numa sala de aula, como estava previsto. Agora só lá estão o Professor titular e o de apoio. “

Quisemos perceber como estava organizada a distribuição das turmas pelas salas. Ana Caiado informou-nos que cada turma ocupava sempre a mesma sala e cada aluno mantinha a mesma mesa. Eram os professores que circulavam, pelo que a desinfeção só se fazia no final de cada período de aulas.

E transportes? “Isso é o pior. Os alunos vêm maioritariamente no transporte público, chegam todos ao mesmo tempo, esperam lá fora, mas quando começar a chover… Não temos telheiros para os abrigar. Vão ter mesmo que entrar”

“E o nosso refeitório, que pena” Todos diziam que parecia um restaurante devido às plantas e à disposição agradável das mesas. Agora… retirámos tudo, colocámos as mesas com uma nova disposição, nem parece o mesmo!”

Quisemos saber o que aconteceria se alguém aparecesse com sintomas. Terá que ser comunicado imediatamente à Delegação de Saúde que decidirá o que fazer.

Depois de termos observado como, em cada turma, estavam os alunos organizados e como o grupo de pessoal docente e não docente estava motivado para o cumprimento das regras e sinaléticas que eles próprios tinham ajudado a implementar, perguntámos:

Sente-se segura na Escola? Podem os Pais, podemos todos nós estar confiantes que a Escola oferece todos os cuidados? A Diretora do Agrupamento de Escolas da Gafanha da Encarnação hesitou antes de responder, mas foi clara: “Nós cumprimos todas as normas, implementámos todos os sistemas de segurança, mas sozinhos não podemos fazer tudo. A autarquia tem apoiado a todos os níveis, mas os Pais são os nossos principais ajudantes. Se os Encarregados de Educação não ajudarem a transmitir aos alunos a necessidade de uma conduta de autoproteção e respeito pelos outros, não conseguiremos garantir a segurança na Escola. A participação dos Pais neste processo é fundamental. Vamos ter que, dia a dia, avaliar todas as situações e improvisar as correções necessárias. “

Concluímos que a segurança nas escolas não depende de uma única programação, não pode ser um processo acabado, mas exige uma atenção permanente, uma constante adaptação.

Porque as Escolas são todas diferentes não apenas pelos espaços que ocupam, pelo tamanho, mas também pelas pessoas que as frequentam, fomos ao agrupamento de Escolas da Gafanha da Nazaré com a Direção na Escola Secundária.

Começámos por reparar na entrada. Dezenas de bicicletas parqueadas mostravam que este é um transporte privilegiado por aqueles alunos.

Todas as normas de segurança: registo da nossa identidade com apresentação do cartão do cidadão, desinfeção de mãos obrigatória e máscara.

Fomos recebidos pela Diretora, Eugénia Pinheiro. Todo o Agrupamento envolve 2100 alunos e só aqui, nesta Escola, estão 900.

As aulas na Escola não pararam, manteve-se o online e presenciais no Secundário o que obrigou a que já no ano passado se tivesse começado a organizar este ano letivo.

Salientou o importante papel da Junta de Freguesia, da Associação de Pais e do Conselho Geral na aquisição de material informático necessário para as aulas à distância e em toda a organização do processo.

Numa breve abordagem, a Diretora da Escola falou-nos de todas as ofertas de ensino que ali são proporcionadas aos alunos pois, segundo a sua opinião, não são apenas os das grandes cidades que têm direito a fazer escolhas. Aquela Escola faz questão em apresentar o maior leque possível de opções. Daí que as suas turmas do 10º ano estejam cheias.

Relativamente à organização deste novo ano escolar contou-nos como conseguiu cumprir com todas as regras emanadas das várias entidades responsáveis, desde a Secretaria de Estado da Educação, à Direção de Saúde. Tanto a Câmara Municipal como as Forças Armadas promoveram formação aos responsáveis da Escola que, depois, foi replicada aos que não puderam assistir. A informação tem circulado por todos o que permite adquirir e transmitir grande tranquilidade. Informar oportuna e corretamente é essencial neste processo em que os boatos circulam de forma incontrolável. A ansiedade não é positiva. “ Vêm agora mais pais trazer os filhos à Escola o que prova a sua maior preocupação  e alguma ansiedade” “As aulas começam agora às 8 h da manhã, conseguimos fazer o desfasamento da hora de almoço e iremos disponibilizar takeaway” “ Nas mesas do refeitório foram colocados cartazes informativos, feitos pelos alunos mais velhos porque, como aí não é possível o uso da máscara, exige-se um maior distanciamento.”

Relativamente aos procedimentos na sala de aula, já que na Secundária não é possível disponibilizar uma sala para cada turma, a Diretora explicou-nos que “ cada turma tem a responsabilidade de higienizar o seu espaço e não é permitida a partilha de objetos. O quadro e os apagadores são desinfetados após cada utilização e as canetas com que os alunos escrevem no quadro também são de utilização individual, tal como as dos professores”. A disciplina de Educação Física também aqui se torna problemática. As orientações vieram tarde e imprecisas. “Mas a Escola torna-se contraditória: passámos todos os anos a mentalizar os alunos para a prática do banho e da atividade física e agora… defendemos o contrário. Nada de banhos na Escola, nada de mudanças de roupa. Não há condições para isso”

O Ministério da Educação assegurou o fornecimento de material de desinfeção e distribuiu 3 máscaras por pessoa, por período.

Como se procede em casos de aparecimento de alunos com sintomas?

“Se um aluno tiver algum sintoma não deve vir à Escola, nem deve tomar qualquer medicamento que possa esconder o que sente. Contacta a linha de saúde. Se já estiver na Escola, vai para a sala de isolamento, contacta-se o encarregado de Educação e a autoridade sanitária”

O Ilhavense quis saber quais as principais preocupações que inquietam esta Diretora.

“A falta de pessoal que possa ocorrer repentina e imprevisivelmente pode trazer sérios transtornos.”

“O aparecimento de casos confirmados pode provocar na comunidade um impacto muito negativo. E a comunicação social não está a prestar um bom serviço, empolando os acontecimentos”

“Enfim, qualquer alteração na rotina do que está previsto pode trazer consequências imprevisíveis.”

“Mas sobretudo o que me preocupa é a saúde dos nossos alunos, não só a física, mas também a que a deficiência de socialização pode provocar. Para prevenirmos o vírus, descuramos outros aspetos também importantes”

“Mas conforta-me o não estar só, o sentir-me muito apoiada por todos, tutela, autarquia, associação de pais e todos os elementos da Escola”

“E sim, é seguro vir à Escola”

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