Editorial da edição de 1 de Março de 2025

Tem sido recorrente, nos últimos anos, o diagnóstico de que vivemos numa sociedade cada vez mais desagregada, onde o convívio social, cara a cara, é cada vez menor e onde envolver os cidadãos na sua cidadania, na participação cívica, é cada vez mais difícil.

Este fenómeno, aliado à crescente digitalização, ao fluxo cada vez mais rápido de notícias nos canais televisivos e à falta de apoio à imprensa regional e local, leva a que cada vez mais exista um desligamento dos cidadãos face à realidade dos lugares onde vivem. Não é, por isso, de estranhar que Trump, Elon Musk, Zelensky, Putin, Gouveia e Melo ou Marques Mendes sejam figuras mais presente nas nossas vidas, no nosso imaginário, do que os protagonistas da nossa vida pública local. É que os canais que os fazem chegar até nós são infinitamente mais velozes e poderosos.

Isto provoca uma distorção do nosso sentido de proximidade com consequências particularmente gravosas, muitas delas na origem de muitos dos problemas que o mundo enfrenta hoje, que se relacionam com uma incapacidade para negociar diferenças num espaço comum.

As eleições autárquicas que se aproximam são um momento fundamental, neste sentido, pela sua função de convocar a população a discutir o futuro dos seus municípios e a envolver-se na discussão das opções que as afetam de uma forma mais imediata. E, para mediar essa discussão, será fundamental o papel dos media locais e regionais. Serão estes, e não outros, a preocupar-se em seguir cada passo das campanhas, em comunicar os programas e em fornecer um espaço de discussão plural aos diferentes partidos em disputa.

É, por isso, particularmente estranho ter sido a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) a dar parecer negativo à proposta  de lei que obriga as autarquias a publicitarem as suas deliberações nos meios de comunicação social regionais. Estranha porque, num país onde uma vasta percentagem de municípios já não dispõe sequer de um único órgão de comunicação social dedicado ao seu território, deveria ser a ANMP uma das principais empenhadas na revitalização deste setor.

Por cá, vamos dando notícia aos acontecimentos e voz aos que pretendem discuti-los, procurando com isso valorizar o debate, e é com satisfação que vejo artigos publicados n’O Ilhavense serem citados amiúde nas reuniões da Assembleia Municipal de Ílhavo, como foram na última. Não é por concordar ou discordar do seu conteúdo, que não me cabe a mim essa avaliação, é porque só pode ser essa, a meu ver, a política deste jornal: produzir matéria para pensar e debater.

1 COMENTÁRIO

  1. Concordo. Uma democracia saudável deve ter proximidade e para termos cidadãos envolvidos temos que garantir que recebem informação sobre o que realmente os afeta no dia a dia, sem a influência de interesses monetários ou ambições de magnatas de países distantes. Valorizar a imprensa local é fortalecer o debate, porque sem ela, a política começa a afastar-se cada vez mais das pessoas, com as respetivas consquências.

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