Querido Pai Natal, este ano faço-te um pedido diferente. Escrevo-te para que me tragas de volta o comércio local – as casas desabitadas das esquinas das ruas, dos centros das avenidas e dos inícios dos becos, que foram desaparecendo com a mudança de hábitos e, talvez, com o enfraquecer de algum sentido de comunidade.
No final dos anos 70, início dos anos 80, surgiram os primeiros grandes centros comerciais em Portugal. O conceito baseava-se num espaço que unisse, num só lugar, um conjunto diverso de lojas, serviços, restaurantes e cinemas. O sucesso destes espaços megalómanos foi imediato e quase inevitável.
O Brasília, no Porto, foi o primeiro da Península Ibérica. No dia em que inauguraram as escadas rolantes, fizeram-se filas para subir ao primeiro andar naquela máquina voadora. Já em Aveiro, o centro comercial Oita era ponto de encontro, palco de conversas demoradas, calçada para passeios em domingos chuvosos e palco de namoricos na antiga sala de cinema. Inicialmente, a maioria dos estabelecimentos destes centros comerciais pertencia também ao comércio de proximidade. No Oita, por exemplo, a famosa croissanteria, a perfumaria ou a loja de peles – sítios únicos, que não se encontravam em mais lado nenhum.
Hoje em dia, porém, não são estes os shoppings de referência para as novas gerações. Muitos negócios destes espaços icónicos acabaram por fechar. Muitas galerias tornaram- se apenas bases de altos prédios. Recordo o projeto fotográfico “Black Friday”, de Seph Lawless, fotógrafo e ativista político americano, que explora antigos centros comerciais destinados à decadência.
O conceito de centro comercial foi-se transformando, sendo, na grande maioria das vezes, um conjunto de franchisings de moda e alimentação, comuns em qualquer canto do mundo. Com preços baixos, a competir com o produto local, e com a comodidade oferecida, é difícil resistir e natural ceder. No final dos anos 90, Aveiro recebeu de sacos abertos o Fórum e o Glicínias.
Nesta altura do ano, quando o Natal se aproxima, época de amor e solidariedade, temos duas opções: ou nos aliamos à confusão, ao frenesim e ao consumismo desenfreado, ou procuramos uma alternativa mais sustentável e comunitária. Bom, Pai Natal, desta vez peço-te que tragas de volta o comércio local.
Sei do que falo. Quando era pequena, os meus avós eram proprietários de lojas no centro de Ílhavo, faziam parte do negócio da cidade. Cresci neste meio: ora comércio de cortinados, ora de vestuário, ora alimento para passarinhos e plantas. Na loja da avó, que se dividia da casa por uma porta de fole, eu ficava numa caminha de berço, empoleirada em bicos de pés, para ver quem entrava. Muitas vezes brincava com os clientes, metiam-se comigo.
Uns anos depois, já sem berço, espreitava atrás da cortina quando a campainha tocava. A meio da tarde, o avô descia da sesta e íamos ao fundo da rua trocar a pilha do relógio ou, à rua ao lado buscar uns sapatos que tinham ido para engraxar. No oculista, sentava-me em cima do balcão; da papelaria trazia um lápis novo para os meus desenhos; e da loja de ferragens saía com vontade de ser artista e pisar grandes teatros.
Alguns desses sítios têm agora cartões a tapar as janelas, pó acumulado nos vidros e balcões sem voz. Pai Natal, desta vez, peço-te que tragas o comércio local de volta. Peço-te que nesta época se voltem a escolher e a comprar prendas aqui por casa, presentes com identidade, que se comprem em sítios de carinho, com caixas embrulhadas em papel escolhido a dedo, recortado e colado criando saquinhos que eu e o avô fizemos à lareira.
Texto publicado no nº 1387 d’O Ilhavense, de 15 de dezembro de 2025.
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