Começamos a entrar nos meses das férias de verão e isso, para alguns de nós, implica um convívio mais intenso com os nossos familiares mais novos. Isso permite uma espécie de retorno, mas, mais do que isso, uma certa licença para a infantilidade em adultos demasiado cansados da sisudez que lhes vai trepando ao longo da vida. Como tudo passa, há que saber aproveitar todas as licenças que o mundo nos vai dando para pendurar, por alguns momentos, os nossos casacos de inverno e brincar um pouco.

O quinto filme da saga Toy Story, recentemente estreado, traz aos adultos um certo substrato melancólico da natureza passageira dessas brincadeiras de infância, mas também um problema mais relevante e contemporâneo, de ordem bastante mais prática: o modo como as infâncias de hoje são invadidas pelos ecrãs e o que isso significa. Num momento particularmente feliz do filme, a boneca Jessie acusa um dos dispositivos que tomou conta do quarto da casa onde se encontra: «Isso não é brincar, é jogar.» Num eco da distinção que o antropólogo David Graeber, na sua crítica da burocracia, estabelece entre jogar e brincar — a primeira consiste numa atividade confinada a um conjunto de regras e de possibilidades mais ou menos previsíveis; a segunda, num exercício imaginativo expansivo, de criatividade e invenção. Ainda que sejam duas atividades que muitas vezes se cruzam, importa perceber que, para desenvolver as capacidades imaginativas de uma criança, é muito diferente colocá-la perante um jogo, um problema a resolver, ou perante um conjunto de bonecos ou peças e um número ilimitado de universos para criar. E é importante perceber, enquanto pensamos os problemas do presente, que ferramentas estamos a entregar aos mais novos para os resolverem no futuro.

Não é surpreendente que hoje nos vejamos a braços, por exemplo, com uma nova epidemia de adição ao jogo. É não só o sintoma mais extremo de uma sociedade dominada por um sistema cognitivo com o qual ainda não sabe viver de um modo saudável, mas também o sintoma de uma humanidade ansiosa por pensar para lá das barreiras do possível, ainda que incapaz de o fazer, vivendo daquilo que lhe foi entregue: a sua sorte.

Talvez seja por isso bom encontrarmos, neste verão, algumas horas para, com os miúdos (ou não), redescobrir essa potente e revolucionária atividade que é brincar. E ler, claro. Ler sempre.

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Publicado no nº 1401 d’O Ilhavense,
de 15 de julho de 2026.
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