No passado dia 22 de janeiro, o 23 Milhas iniciou a sua programação regular de cinema, na nova Sala-Estúdio Cinema, que apresentará um filme, quinzenalmente, às quintas-feiras, e promete ciclos temáticos ao longo do ano. Nesta primeira sessão, a que pude assistir, foi exibido o último filme de Jim Jarmusch. A sala estava esgotada, o que é um ótimo sinal para esta nova vida cinéfila em Ílhavo. De facto, é a primeira vez em gerações que enquanto comunidade vamos ter a oportunidade de acesso regular a sessões de cinema, o que é de enaltecer e celebrar.

Essencialmente diria que existem dois eixos por onde esta nova relação com o cinema pode operar. O primeiro passa pelo conceito de encontro que é fulcral na obra do cineasta Robert Bresson. Se é verdade que nas suas “Notes sur Le cinematografe” (1975), Bresson fala desta ideia como um centro vital ligado à práxis cinematográfica do ponto de vista do autor, creio que podemos estender este encontro para a globalidade da experiência fílmica, onde se encontra naturalmente o espectador. E se de facto, para o espectador, o encontro no cinema só existe por intermédio da obra, a verdade é que me parece que existe uma abertura, com esta proposta do 23 Milhas, para uma outra dimensão deste encontro – o de uma comunidade de cinéfilos em potência, à volta dos filmes e do que eles nos podem fazer sentir, em momentos potenciadores de verdadeiras experiências aurais, na conceção Benjaminiana de fruição da obra de arte.

De certa forma, estas considerações ligam-se a outro eixo que gostaria de mencionar, a partir de uma frase do crítico e teórico de cinema André Bazin que, embora transformada pelo tempo num lugar-comum, não deixa de ser atual: a ideia de que o cinema é uma janela aberta para o mundo. Numa comunidade como a nossa, que tem um passado não tão distante de abertura para o mundo, graças à tradição bacalhoeira, recuperar esta lógica através do cinema parece-me uma escolha feliz, marcante e bastante contemporânea. Numa altura em que o hic et nunc da nossa sociedade se aproxima cada vez mais de uma lógica de fechamento de todas as janelas possíveis, programar cinema é um ato que nos oferece a todos uma feliz hipótese de dissonância e a oportunidade de nos abrirmos para a alteridade, sem medo desse encontro. Aliás, a propósito disto, gostaria de citar o Professor João Lobo Antunes, que no seu ensaio “Umana cosa é” (2004) considera que «a medicina tem um travo diferente quando é praticada por médicos cultos, não só porque apreendem mais facilmente a complexidade do que é estar doente, mas também porque desenvolvem aptidões como empatia, curiosidade, sentido de humor, imaginação, disponibilidade».

Neste sentido, eu diria que, na verdade, a vida tem um travo diferente quando estamos empoderados pelas capacidades únicas que a arte nos oferece, e, portanto, através dos dois eixos que mencionei, creio que esta nova programação de cinema do 23 Milhas é uma oportunidade de encontro e de abertura.

Texto publicado no nº 1390 d’O Ilhavense, de 1 de fevereiro de 2026.
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