Nesta edição d’O Ilhavense temos a infelicidade de lamentar a partida de António Neves Vieira, antigo diretor deste jornal, vice-presidente da Câmara Municipal de Ílhavo e homem cuja vida se pautou por uma constante dedicação à participação na vida do município, não só através do seu jornal local, mas da participação na sua vida política e associativa. Na página 6 desta edição, dedicamo-nos ao seu legado de participação e dedicação públicas.
Como é evidente, toca-nos em particular a sua passagem por este jornal. Se hoje nos orgulhamos de continuar a imprimir um jornal com 104 anos a caminho dos 105, sabemos que não estaríamos aqui sem o seu contributo enquanto diretor ao longo de 17 anos da sua vida. E a verdade é que, sendo a nossa natureza temporária o que é, convém também que não esqueçamos que à nossa presença física sobrevivem sempre os resultados das nossas ações, do nosso trabalho e do nosso entusiasmo. Cabe a quem fica receber o testemunho e prosseguir, tão bem quanto possível, através desses exemplos.
No destaque desta edição, dedicamo-nos ao movimento do comércio local e às iniciativas com as quais se tem esforçado por se renovar e encontrar novas formas de chegar à população. Assisti, no passado dia 20 de janeiro, a um dos seus encontros e pude testemunhar a vontade de transformar e de lutar por esse que é o músculo de qualquer cidade: os seus pequenos negócios, o seu comércio, o seu emprego. Este é um grupo de pessoas que não desiste deste lugar, nem das aspirações que nele legitimamente deposita.
São conhecidas as dificuldades que todas estas atividades enfrentam perante um mundo onde a pequena escala e a proximidade vão sendo preteridas face à grande escala. Mas sabemos das vantagens que um comércio local vigoroso nos traz: circuitos mais curtos (mais ecológicos), circulação de valor dentro da comunidade, fortalecimento das redes de proximidade, mais dinamismo, mais emprego e mais segurança. Nesse sentido, este esforço dos comerciantes locais merece uma atenção especial de todos nós, já que todos beneficiamos dele.
O que é verdadeiramente inspirador nestes e outros exemplos é a sua lucidez. Todos se encontram plenamente conscientes das dificuldades e dos prognósticos. Mas para quem a única opção é a ação, a resistência e o entusiasmo, de pouco servem as análises pessimistas. Ora, viver num lugar deve ser isto: empenhar-se nele, e se o cenário for complicado empenhar-se ainda mais. E a todos nós, creio eu, cabe entendermos que, se valorizamos esta ideia de cidade, de comunidade, devemos empenhar-nos também nela, antes que ela passe a não ser mais do que isso: uma ideia. É assim que damos continuidade ao mundo, e ao esforço, que recebemos de quem nos precedeu.
Num mundo a cuja degradação vamos assistindo, importa percebermos que apenas podemos contar com aquilo que conseguimos fazer em conjunto, nos lugares onde vivemos. E aquilo que não gostamos de ver nas notícias, no “mundo lá fora”, devemos começar por contrariar aqui, onde estamos: onde tudo começa.
Texto publicado no nº 1390 d’O Ilhavense, de 1 de fevereiro de 2026.
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