A expressão usada no título deste texto foi dita por um comerciante numa reportagem de um telejornal. Desde há muitos anos a esta parte, a ideia do litoral desenvolvido versus interior envelhecido e empobrecido pode aplicar-se ao investimento financeiro e social, à indústria, ao emprego, à demografia e à imprensa escrita, profissional e validada.
A crise na imprensa escrita tem vindo a tomar proporções alarmantes e agora sabemos que a VASP, empresa que distribui jornais e revistas em Portugal, tenciona reavaliar rotas diárias em oito distritos que considera deficitários em termos de receitas. Os distritos de Beja, Évora, Portalegre, Castelo Branco, Guarda, Viseu, Vila Real e Bragança correm o risco de deixar de ter jornais e revistas.
É a continuada quebra de vendas e o aumento de custos operacionais que leva a VASP a equacionar esta medida, com o Governo, até ao momento, a tratar o assunto com uma leveza gritante. O Ministro da Presidência, Leitão Amaro, que tutela a comunicação social, já disse que não passa cheques em branco e que isto implicará acionar “mecanismos concorrenciais” – o que raio quer isso dizer, não sabemos bem, sendo até que diretores de jornais de âmbito nacional têm dificuldade em interpretar o significado.
Uma Democracia sem jornalismo livre, profissional e validado, assente em normas e códigos, deixa de o ser num abrir e fechar de olhos. Os mais velhos deixam de ter acesso à informação em formatos analógicos que se coadunam com os seus hábitos e habilidades, e alguns dos mais novos simplesmente não querem saber ou limitam-se às letras gordas das partilhas nas redes sociais. Mas pior: da fugaz leitura de títulos de jornais ao consumo gratuito, inflamador e tantas vezes falso de influenciadores digitais é um ápice.
A frase “agora está tudo na Internet” é dita cada vez mais, tanto pelos mais jovens como, em crescendo, pelos mais velhos. Os influenciadores – alguns até se dizem jornalistas, ainda que sem créditos profissionais – cavalgam esta ideia em áreas como a anti-imigração, a anti-vacinação e o populismo. O que importa os jornais noticiarem que os imigrantes contribuíram mais de 3 mil milhões de euros para a Segurança Social quando há dois ou três canais na Internet, com milhares de subscritores, que propagam a noção de que andamos a pagar-lhes subsídios do nosso bolso? O que importa os jornais falarem em avanços na medicina e que a vacina anti-COVID preveniu milhões de mortes quando há um ou outro iluminado que até contra o paracetamol é? E podia continuar…
Os jornais, nomeadamente os locais e regionais, são precisos mais do que nunca! Um jornal como O Ilhavense combate o isolamento individual e territorial ao promover a proximidade, porque informa, fomenta o contacto com a Língua Portuguesa, faz conversar e deixa a História firmada para a posteridade.
O chavão de que o mercado tudo resolve é uma falácia neoliberal, que até ao nível autárquico já é vendido. Olhando para o cenário maior, já pouco se trata de empresas jornalísticas mal geridas, mas do abandono de uma parte do país e, sejamos francos, de um desinteresse crescente pela leitura e informação isenta. A solução está cada vez mais longe de ser alcançada pelas direções e gerências dos jornais – a solução passa por mais investimento dos Governos através do Orçamento do Estado e, num último reduto, por proteção assente na Lei para que o ónus não seja levianamente passado para a boa vontade das autarquias que, eventualmente, podem cair na tentação de quererem pôr e dispor nas redações.
Bem sabemos que é mais uma luta sectorial no meio de tantas outras, mas que envolve milhares de trabalhadores, e, em suma, é um sector que ao falir em todo o país contribui para a lápide em que se lerá “aqui jaz uma Democracia”.
Texto publicado no nº 1388 d’O Ilhavense, de 1 de janeiro de 2026.
Assine o jornal aqui.


![[Editorial] Uma atualização peculiar](https://oilhavense.com/wp-content/uploads/2026/02/editorial-uma-atualizacao-peculiar-218x150.png)
![[Opinião] Cinema em Ílhavo](https://oilhavense.com/wp-content/uploads/2026/02/henrique-vilao-cinema-em-ilhavo-218x150.png)
![[Editorial] Onde tudo começa](https://oilhavense.com/wp-content/uploads/2026/01/onde-tudo-comeca-editorial-david-calao-1390-218x150.png)
![[Editorial] Uma atualização peculiar](https://oilhavense.com/wp-content/uploads/2026/02/editorial-uma-atualizacao-peculiar-100x70.png)




