Bô-velho

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Há pessoas que passam na nossa vida pouco tempo, mas ficam a vida toda.

Conheci e convivi com o meu Bisavô, o meu “Bô-velho” até aos cinco anitos. Lembro-me de poucas coisas, mas muitas vezes.

Um Homem sábio, respeitado e acarinhado pelas pessoas, o verdadeiro patrono – Duarte Morgado (Velho). Elegante, bem lá no alto dos seus 90 anos, sempre com a sua guitarra portuguesa, pronto a provocar uns sorrisos em pequenos e grandes ao chegar.

Lembro-me de algumas coisas que ele me dizia. Lembro-me de ele me vir buscar de bicicleta, danado por já não o deixarem conduzir, resmungão, mas até nisso seria bem disposto. A minha mãe ficava aterrorizada com medo de eu ir passear com ele de bicicleta, mas tinha vergonha de dizer que não ao avô dela. Mas eu, medo? Nada disso! Então algum dia alguma coisa me podia acontecer com o meu “Bô-velho”? Tão alto, era dos homens mais altos que eu conhecia, sempre tão sábio e seguro, lá ele me deixaria que acontecesse alguma coisa de mal? Lá ia eu agarrado a ele, e na verdade nunca me aconteceu nada mesmo. Claro.

E levava-me a passear, sempre com palavras serenas, como se soubesse que não ia durar muito na minha vida e me quisesse deixar palavras, não só imagens, na minha memória. E deixou.

Levava-me a ver o quintal dele, dizia que umas frutas são apanhadas do céu, temos de olhar para cima para as apanhar, de nos esticar como as pêras, maçãs ou laranjas, mas outras, como os morangos, tínhamos de nos baixar ao chão, no entanto, seria das frutas mais doces, mesmo sem termos de olhar para cima. Como se as coisas boas possam vir de todos os lados e não apenas de onde parece.

Dizia que ser esperto é diferente de ser inteligente. Oh Bô-velho, como tens razão! Vejo os espertos a governar em todo o Mundo e os inteligentes a serem abafados por lhes faltar esperteza. E perdemos todos por isso, por no Mundo, existirem poucas pessoas que sabem usar em conjunto as duas coisas. Inteligência e esperteza. E realmente o Mundo é dos espertos, assim diz a expressão, não dos inteligentes.

Dizia que há duas coisas que não devemos ter longe de nós, a música e os livros. Alimentar a alma com a música e a cabeça com o conhecimento, será agora a minha tradução.

Leia o artigo completo na edição em papel.

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