É o sangue que nos une

0
280
All-focus

M. Barreto Condado

 

O tempo muda-nos, as Vilas tornam-se Cidades, Ílhavo para mim representa um regresso às minhas origens ou simplesmente um voltar a casa.

 

Durante um longo período da minha vida depois da morte do meu avô materno Mário Barreto Dias, também ele um filho da terra, era com o coração apertado que fazia a viagem de Lisboa a Ílhavo, a tristeza de saber que os momentos que vivera com ele com o passar do tempo tinham-se transformado em pó. Chegar significava visitar o cemitério, percorrendo os estreitos caminhos entre as campas, passando por cada uma delas parando o tempo suficiente para falar com a família como fizera anos antes quando percorria as ruas da cidade para os cumprimentar nas suas casas.

Mas era sempre o silêncio daquele lugar o que mais me custava por não me permitir recordar o som das suas vozes.

 

Porém com o tempo as boas memórias começaram a ser mais importantes do que as perdas e hoje ao abrir o velho baú da minha avó materna, Maria Madalena Celestino Gomes, deparei-me com exemplares do jornal “O Ilhavense” que o seu irmão Cândido sempre lhe levava e que ela guardava religiosamente, o primeiro está datado de 10 de Abril de 1964, com o N.º 2142. Encontrei fotos de família, registos de nascimentos e para grande felicidade minha a Árvore Genealógica da família organizada em 1943, pelo Genealogista D. Fernando Tavares e Távora, onde descobri que os primeiros Gomes já constam da história de Ílhavo desde os primeiros anos do século XIX, que os Oliveira Vidal vieram da Ermida e que eramos uma grande família espalhada um pouco por todo o Distrito. Foi quando me preparava para escrever esta crónica que descobri o nome de mais um dos meus antecessores, André Vidal que fora moço da câmara dos Reis D. João III e D. Sebastião, Escudeiro fidalgo e Piloto tendo servindo nos contos da Fazenda Real em Lisboa e em Aveiro, informação essa que me aguçou ainda mais a curiosidade de querer saber mais sobre a minha história.

 

Mas remexer nestes documentos antigos deixou-me saudosa, particularmente das visitas a casa da minha bisavó, Maria da Apresentação São Pedro, a minha avozinha. Mulher pequena em estatura, mas enorme em carácter e temperamento, que não tendo uma vida fácil se recusou deixar-nos até poucos dias antes de completar cem anos. Recordo-a com saudade e é com o mesmo sentimento que me lembro de abrir a porta da sua casa na Rua Dr. Samuel Maia, como eu adorava aquela casa que infelizmente já não existe. Recordo-me dos seus mais ínfimos detalhes, a disposição do rés-do-chão, da escadaria de madeira que nos conduzia ao primeiro andar, das janelas de guilhotina que ainda hoje exercem sobre mim um estranho fascínio, do jardim, dos poços, mas essencialmente de acordar com o cheiro do café de cevada acabado de coar, das padas ainda quentes onde a manteiga derretia, do folar com ovos que chegava quente da padeira que vivia do lado oposto da rua.

Não conheci o meu bisavô, José Cândido Celestino Pereira Gomes, mas sei que era nobre de carácter, bondoso e que colocava o seu amor à família e a Ílhavo acima de tudo. Foi ele quem em Maio de 1936, deu entrada na vila transportando o novo estandarte do Município.

 

É verdade que muito mudou em Ílhavo, mas continua a ser com um enorme orgulho que vejo que certos marcos se mantêm inalterados, os seus nomes são recordados através da cidade, no nome de uma Rua, numa Escola, no Museu da Marinha, num recorte de jornal, numa menção, na história da cidade, e até mesmo no cemitério.

A nossa família continua viva através de todos os seus descendentes muitos dos quais ainda aqui vivem e que tal como eu se mantêm fiéis a contar a história daqueles que apesar de já não poderem falar nos fizeram à sua imagem.

 

Quero agora regressar com um sentimento de gratidão por todos aqueles que me moldaram, posso não ser uma filha da terra, mas sou orgulhosamente uma neta de todos que fizeram de mim a pessoa que sou hoje e será aqui que descansarei quando a minha hora chegar, junto deles, que continuam mesmo nos meus momentos mais negros a ser o Farol que me guia em segurança para Terra firme.

 

 

 

* Artigo escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

DEIXE UMA RESPOSTA

Introduza o seu comentário
Introduza o seu nome