A minha avó

Ai filho, estamos mesmo no fim do mundo!

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Pedro Rocha

A minha avó, que ainda não tinha morrido e já me dizia, ai filho, estamos no fim do mundo, adivinhava qualquer notícia, quando assistia ao telejornal.

Falava com a televisão e nunca deixava o pivot anunciar a informação, o jornalista apresentar a realidade e a notícia, coitada, a concluir-se sozinha. Quando dizia, ai filho, estamos no fim do mundo, adivinhava a notícia.

Foi sempre assim, e, naquele dia, há cerca de um ano, tornou a sê-lo, quando ouviu o pregão, ai faneca, e me disse, devem estar a anunciar a Rádio Faneca na televisão; ai filho, estamos no fim do mundo.

Das suas experiências com a Rádio Faneca, já muitos natais e páscoas fizeram questão de me contar e esclarecer, desde os discos pedidos aos discos perdidos por causa daquele tempo; até às pessoas solteiras e casadas que se juntavam à volta do Henriqueta Maia, e ali ficavam ao som da música no ar; não como hoje que andam com coisas nas orelhas.

Também ouvia bastante, agora em conversas naturais entre as mulheres da minha avó, sobre o tempo quando se namoravam as irmãs ou as tias mais velhas, com os namorados ao longe, ainda a Rádio Faneca era uma casinha e uns altifalantes espalhados pelo Henriqueta Maia, e as saias eram por baixo do joelho para não se verem as vergonhas.

Mas naquele dia, faltava-me ouvir, ai filho, estamos no fim do mundo, para saber(-me), afortunado pelo peculiar dom de adivinhar, que aquela Rádio Faneca estava na televisão, e aquele Henriqueta Maia voltava a ouvir discos pedidos e perdidos, agora espalhados pelos Sete Caminhos; a ver as avós e os avôs sentados nos muros, agora partilhando o espaço com os filhos e as filhas, netos e netas, cantando e dançando na Bida Airada; e a saborear todos os tremoços e pevides salgados, agora partilhando os gostos com bifanas e cachorros.

Definitivamente, como quem regressa de uma longa viagem que foi chegar a uma geração, faltava saber(-me) que podemos estar mesmo no fim do mundo, vendo o outro a afastar-se lentamente sem a certeza de que, cá, fica tudo sabido e aprendido, para que viva sempre a velha Rádio Faneca e o velho Henriqueta Maia.

Só à minha avó digo, em silêncio, se estamos no fim do mundo, pois que outro se levante e chegue, também lentamente, se faça gente e cresça, que lute que também nós lutámos, e que não se esqueça de onde vem e para onde vai. Digo-o assim mesmo à minha avó, sem certeza de nada, apenas contente por já estar sentado e sentada num outro Henriqueta Maia, a ouvir uma outra Rádio Faneca; e, dentro de mim, um festival, onde nos perdemos e nos encontramos com novas e velhas pessoas, para voltar, pelas ruas dos Sete Caminhos ao tempo em que virão um outro Henriqueta Maia e uma outra Rádio Faneca.

Ao Festival Rádio Faneca, que ande como está andando!

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