Uma quinzena depois da outra

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O verão caminha para o seu fim, neste estranho mês de agosto. Entre pingos de chuva e o tradicional vento encanado, os areais começam agora a dar lugar aos passeios familiares, de carro ou a pé, já que a temperatura da água se torna cada vez menos convidativa, as férias chegam ao seu termo e o recomeço das lides laborais aparece do outro lado da porta.

Visto de dentro do balcão, sempre apreciei mais a primeira quinzena de agosto. O dia dezasseis começava já muito cinzento, como se a época balnear fosse embora com o feriado. As caras eram outras, é verdade, mas sempre menos e distintas. Os últimos quinze dias pareciam querer apresentar já o outono. Setembro estava já ali.

Durante mais de dez anos, trabalhei numa pastelaria/café de praia, na nossa Praia da Barra. Mais do que trabalhar para ajudar a família a custear as despesas de quem estuda – começando pelas propinas, pelo alojamento, sempre a meias com um amigo, e a alimentação – a ideia de ocupar o tempo a trabalhar naquele espaço sempre me pareceu bem. Eu, que vinha da Gafanha da Encarnação e raras vezes passei a ponte de bicicleta, passei a fazê-lo diariamente, durante muitos anos. O primeiro dia de todos eles, o 10 de junho. O feriado 10 de junho, com uma praia cheia de gente, que se movimentava entre os passeios – ainda sem ciclovias – o areal e o paredão, com passagem obrigatória pelo maior farol da península ibérica, no ano passado o mais visitado de todo o país. Recordo-me perfeitamente da primeira coisa que me pediram a mim, um quase empregado de balcão, completamente atrapalhado e a destilar suor: uma coca-cola de 33 cl. Fresca, evidentemente.

O primeiro problema foi descobrir onde estava e como abrir a arca frigorífica. Tudo o resto, depois, foi pacífico. Chamava-se La Gran-Via e, honestamente, não sei se continua aberto. Os sete dias que passei em Ílhavo neste verão não me deixaram tempo para confirmar.

Ainda assim, as memórias são impossíveis de perder, tal como a amizade que fiz com ambos os proprietários, familiares, antigos emigrantes na Venezuela. Pessoas trabalhadoras, dedicadas, resilientes, exemplares. Recentemente, consegui encontrar dois deles, numa celebração que nos juntou, com casamento e batizado à mistura. Eles, sempre à direita. Eu, à esquerda. Quantas discussões tivemos sobre política, futebol – eu benfiquista, eles do Sporting – com argumentos, ideias e uma descontração própria de quem faz o que tem de ser feito, sem deixar de ser aquilo que deve ser.

Após o primeiro problema – as coca-colas são difíceis de encontrar para qualquer novato – não mais problemas houve. Deixei de ir de bicicleta e troquei-a por uma scooter, sempre fácil de estacionar e sem precisar tanto de ser puxada. Hoje ainda daria jeito, pelo que sei do infernal trânsito que continua a envergonhar o poder camarário. Na altura, era só incompetência da autarquia. O que até era bom para o negócio, pois como os clientes habituais sabiam da demora que teriam pela frente, mais valia esperarem numa esplanada do que no interior do carro.

E assim passaram mais de dez anos. Aprendi que nicola é o nome do café e sem ele fica difícil viver. Que os pastéis – todos – são uma cópia de deus e que os amigos são para as ocasiões. Que os turistas da primeira quinzena são diferentes dos da segunda, que o Sr. Vítor e a Sra. Teresa são um casal fabuloso, que a Zita Leal é uma amiga enorme e que recolhemos sempre as coisas que semeamos. Assim, simples. No final de mais um verão.

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