A vida é feita de pequenos nadas

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A vida é feita de pequenos nadas. Aproveitando um verão tardio, e seguindo o roteiro tão bem desenhado pelo Pedro nos últimos três números d’O Ilhavense, passeio com o Jeremias pela trela, que vai mapeando o território da forma menos intelectualizada que a natureza lhe deixou.

Em Ílhavo, sobretudo onde o piso se quadricula, os bons dias e as boas tardes são trocados sem avareza, relíquias de outros tempos, ou da ideia que fazemos de outros tempos. Ao longo das ruas, há foguinhos de conversa, amontoados de gente, de vizinhos ou de clientes de cafés onde se bebe e fuma o quotidiano, além de se petiscar a preços muito simpáticos. Nos intervalos, há fogos vazios – formulação curiosa – fogos habitacionais vazios.

A vila é feita de pequenos nadas. Não é uma vila, claro, é uma cidade. Resquícios de outros tempos, como estas portas enfeitadas de números de telefone. Passeamos, mapeando, e vamos comentando: “o que daria para fazer aqui!”, “esta é muito bonita!”, “aqui ficava bem uma livraria”. E vamos enchendo estes pequenos vazios-de-imaginação de imaginação.

O Jeremias, às vezes, leva-me por certos becos dentro. Cheira-lhe que ali há gato, e eu deixo-o ir ver, só para o desinquietar. Deixamo-nos ir e entramos por labirintos que se bifurcam, e se bifurcam, e damos por nós já sem saber bem onde e quando estamos. De uma casa com aspecto muito muito antigo ouve-se uma canção a ser interrompida por um anúncio do Spotify; no beco, onde não passam carros, passa por mim uma trotinete electrica (a modernidade passa por todos os lugares) e sigo o seu sentido.

Saio do labirinto para uma cidade nova, mas aqui há gato, novamente. E cão, e gente. Uma cidade nova, de gatos e cães e gente, talvez seja esse o fim deste labirinto que é a nossa imaginação ou, por outras palavras, o nosso futuro.

Que a vida é feita de pequenos nadas. E nos nadas, a nossa imaginação germina; nos fogos vazios, só a imaginação habita e arde. A Jorge Luís Borges, o pintor Jorge Larco prometeu um quadro que não pintou, porque morreu. Nesse vazio, o argentino escreveu um dos seus textos mais belos, nesse vazio que são todos os quadros que aquele poderia ter sido; a eternidade de uma promessa, de um espaço em branco.

Na quadrícula deste piso que habitamos, podemos gizar o mapa que quisermos, por mais labiríntico que seja. Mas agora é tempo de regressar a casa. Cruzarmo-nos de novo com os cumprimentos, com as conversas, com a fumaça de uma rua que vive em paralelo com outra que há-de estar por nascer. E nesse bulício e nesse vazio que são o haver e o não haver, matar a sede e a fome até não as sentirmos mais.

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A Torrão Sacramento que, após uma vida dedicada a combater o vazio, nos deixa um inapelável. Agradeçamos-lhe os que soube e conseguiu preencher e continuemos o trabalho.

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