No cinquentenário da morte de Mário Sacramento

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Mário Sacramento nasceu em Ílhavo, em 7 de Julho de 1920, na casa da sua família, ali ao Largo do Oitão.

Filho de Artur Sacramento, comissário de bordo na Marinha Mercante (homem muito culto, possuidor de um grande carácter e sentido de vida, figura altruísta e solidária – será um dos primeiros Comandantes dos Bombeiros Voluntários de Ílhavo – e de Rita Sarmento, cuja família vinha de pesado tributo pago nas lutas Liberais de 1828. O convívio com esta família materna, muito próxima de figuras proeminentes nas lutas por uma nova ordem de liberdade, de igualdade e fraternidade que tinham ido beber à Revolução Francesa (de onde se destaca o tribuno José Estêvão cuja esposa era madrinha de D. Rita Sarmento), teria tido, certamente, influência no jovem Mário que, habitualmente, passava grandes temporadas em casa da família materna. Como ele mesmo recorda no seu «Ave Aveiro»:

“Sob os lampiões dos Arcos, Rua dos Mercadores abaixo, vogavam bateiras conduzindo os teus íncolas (ia a dizer os teus doges) às soleiras das portas. E eu batia palmas de menino com brinquedo, na janela da avó. Casa escura, com mofo a rato, olhares do José Estêvão no louceiro antigo, um opúsculo do Marques Gomes a dizer-me que um tio de antanho fora decapitado pelo D. Miguel, grades de pimpons nas sacadas de pedra antiga — em que um dia entalei a cabeça (para retomar essa tradição, quem sabe?), tendo sido liberto, depois de muito suor e ferros, por um serralheiro do Mindelo”…

Mário Sacramento aprende, autodidacta, o Esperanto. Língua que então se sonhava vir a ser, universal: – “um só povo, uma só língua “. Jovem ainda, logo em Ílhavo, cria, na AHBVI, uma turma aberta para divulgação da mesma. O Esperanto, acreditava M.S. seria a antecâmara para a união dos povos sob o fim último das teorias marxistas da igualdade, de direitos e oportunidades, que já então lhe despertavam a atenção e o empenho.

Em 1938 (dez de Junho) a PIDE prende-o pela primeira vez, ao mesmo tempo que proíbe a publicação e circulação da revista «A Voz Académica». Tinha, tão só, dezassete anos. A prática, o empenho e aceitação das teses vertidas tão precocemente, começavam a ser perigosas – já! – e a importunar o regime salazarista, que antevia com perspicácia – diga-se – ali se encontrar um potencial e vertido subversor do regime.

Contrariado na sua vocação pelos pais, que o não deixam seguir letras, Mário Sacramento vai estudar Medicina para Coimbra, e completar, depois em Lisboa (1946), o curso. Tempo para aderir ao M.U.D juvenil, movimento de unidade cujo fim era o derrube do regime fascista.

A sua vocação para a escrita salienta-se em 1945, quando apresenta nos Jogos Florais da Universidade de Coimbra, o livro «Eça de Queiroz – Uma Estética de Ironia», distinguido desde logo com o prémio Oliveira Martins. Neste trabalho, Mário Sacramento segue o percurso de Eça (autor a que o ligavam afectos familiares próximos e exultação pelo exemplo do avô de Eça, Conselheiro Queiroz que, em 1828, levantara o povo de Aveiro(e do País) pela afirmação suprema da Liberdade), procurando dilucidar sobre a influência que nele teria tido a vivência de Coimbra – cadinho onde se fundem ideologias e novos rumos do pensamento – e assim, descobrir o genial escritor realista, “impressionado execravelmente com o que encontra em Lisboa”.

Terminado o curso, M.S. vem exercer a profissão para Ílhavo – onde de imediato tem casos clínicos notáveis que o fazem sobressair da mediania instalada – abrindo consultório na Rua José Estêvão onde passa a viver com a família. O consultório transforma-se em local privilegiado servindo de ponto de reunião a políticos do contra, reviralhistas e ou revolucionários.

Por isso sempre atentamente debaixo dos olhares da PIDE que, amiúde, vigia – escancaradamente – os pontos de acesso ao mesmo. Ponto, contudo, de referência, como local de atendimento para os mais necessitados que, graciosamente – e tantas vezes ainda reconfortados com alguns tostões no bolso para a compra dos medicamentos – dali saíam bem agradecidos, reconstituídos física e materialmente. E que, por vias disso, o irão glorificar, ao atribuir-lhe o epíteto de «Médico dos Pobres», como passa a ser conhecido em Ílhavo.

O ano de 1953 leva-o de novo aos calabouços políticos. Lúgubre interiores onde irá sofrer as sevícias (que deixariam rasto…) da tortura do sono, ou do plantão em «estátua», com que habitualmente o regime fascista salazarista mimoseia os seus opositores mais perigosos. Responde às agressões, enviando à família escritos cheios de ironia, sabendo de antemão que a primeira leitura dos ditos, será a dos esbirros. E assim os aguilhoa. Resiste, física, anímica e ironicamente, desesperando-os, bandarilhando-os, como se faz à besta cega.

E, na cela, apesar de lhe chegarem a negar a simples consulta de livros, elabora um trabalho intitulado «Fernando Pessoa – Poeta da Hora Absurda» que será publicado em 1958. Um trabalho de que, mais tarde disse, gostaria de refazer, dadas as condições em que foi elaborado. Nele leva-nos à descoberta da essência comum entre o poeta e os heterónimos – embora assuma serem individualidades diferentes – apontando-nos a concepção geral da vida do vate: – um beco sem saída!

Em Ílhavo os «próceres» locais impedem-no de trabalhar na Misericórdia, tentando coartar-lhe a carreira profissional. As denúncias de colegas e as maledicências, empurram-no para o exercício médido, em Aveiro (1955), onde se irá estabelecer em consultório aberto, mesmo em frente do café Trianon.

Em 1955, volta – por duas vezes – a ser levado para o António Maria Cardoso. O então inspector chefe dos esbirros pidescos, o grotesco Sachetti (cujas origens se situam em Aveiro), sabe do perigo que representa Mário Sacramento. Ordena por essa avaliação a sua vigília, dia e de noite, atribuindo-lhe uma perigosidade preocupante para o regime.

Isso não impede M.S. de ser o obreiro que torna possível, em 1957, o Iº Congresso Republicano, de que foi o Secretário Geral.

Em 1959 publica «Ensaios de Domingo» e inicia com Óscar Lopes – intelectual de quem ideologicamente se manterá muito perto – uma colaboração literária no jornal «Comércio do Porto».

Em 1961, como bolseiro do Estado Francês, vai para Paris. No Hospital de St. Antoine tira a especialidade de gastroenterologia, apesar de gravemente doente (pois que durante a estadia – por deficiência alimentar e ou excesso de labor – contrai a tuberculose).

Regressa em 1962, para voltar a ser preso, de novo, ainda nesse ano.

Em 1966, assume-se crítico literário, colaborando no caderno de Literatura do «Diário de Lisboa». E também na revista «Seara Nova». Nesta colaboração destaca-se o debate sobre a procura de uma «Estética Neo-Realista», com a inventariação dos autores nacionais que a perseguem. Era importante para Mário Sacramento encontrar nas diversas propostas artísticas – poesia, teatro, novela, romance, ou até na literatura juvenil (e ou feminina) – formas de expressão de arte. Um retrato das preocupações sociais, um conflituar com a realidade, um assumir objetivo de uma vivência “idio-sensível” na posição social dos autores na neo-revolução (que teria de ser inevitável).

Será em 1967 que publicará «Fernando Namora – Obra e o Homem» logo seguido de «Há uma Estética de Ironia?», em 1968.

O Concílio Vaticano II cmo as suas conclusões e indicações que pareciam definir uma evolução no pensamento da Igreja, mais aberto e mais preocupado, mais suportável para o ateu assumido, levam Mário Sacramento a procurar, nas páginas do jornal «O Litoral», interlocutores para com eles estabelecer um diálogo com o «credo», numa procura de pontos e empenhamento comuns, “apesar” de tudo. Artigos que, mais tarde, em 1971 – já depois da sua morte – seriam reunidos em volume publicado sob o título «Frátria – Diálogo com os Católicos».

Morre a 27 de Março de 1969, nas vésperas do 2º Congresso Republicano de que, mais uma vez, foi o principal obreiro – o fogo que ateou a labareda no requerimento, ainda por ele redigido. Que se viria a realizar sob o patrocínio do seu espírito, permanentemente presente do primeiro ao último instante, no «Teatro Aveirense», onde teve lugar.

Salazar, é certo, estava moribundo. Politicamente morto. Mário Sacramento já não veria a queda do regime para a qual tinha sido um dos mais férreos contribuintes, um dos mais entusiastas e dos mais lúcidos, combatentes. Infatigável e persistentemente activista, ousou lutar contra tudo quanto de retrógrado, representava e continha, o caduco regime salazarista.

Mário Sacramento adivinhou na sua «Carta Testamento», redigida em Abril de 1957, onde lúcida e certeiramente faz uma premonição rigorosa do tempo sobrante que, certamente, lhe iria faltar para ver a queda do regime salazarento:

“Não viu o que quis; mas quis o que viu” disse-nos nessa missiva em que, dum modo terno mas incisivo, nos lança um aviso:

“Façam um Mundo melhor! Não me façam voltar cá.”

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