Centro cívico lidera lista de desejos da Gafanha da Encarnação

Dezembro é mês do aniversário da elevação da Gafanha da Encarnação a vila. Em entrevista a’O ILHAVENSE, Augusto Rocha, presidente da Junta de Freguesia, fala de alguns “projetos-sonho” que gostava de ver concretizados.

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De 6 a 8 de dezembro, a Gafanha da Encarnação vai montar, pelo terceiro ano, o seu Mercadinho de Natal. Que balanço faz ao evento?

O Mercadinho de Natal começa a afirmar-se como um evento muito importante para a freguesia. O envolvimento dos artesãos e dos comerciantes tem sido cada vez maior. Temos notado um crescimento na procura e temos aumentado a dimensão da tenda de forma a albergar todas as pessoas que querem participar. Em termos de dimensão e de investimento por parte da junta de freguesia é, neste momento, o maior evento do ano.

O Mercadinho está vocacionado para os pequenos comerciantes e artesãos da Gafanha da Encarnação…

Só da freguesia da Gafanha da Encarnação, sim. Temos tido várias solicitações de pessoas que não são da freguesia, mas temos de criar um filtro. Não temos capacidade para acolher pessoas de fora.

Pela limitação do espaço?

Sim. No primeiro ano, tivemos uma tenda de cerca de 300 metros quadrados; no ano passado duplicámos a área do espaço; este ano, ainda vamos aumentar um pouco mais, para cerca de 700 metros quadrados. Mesmo dentro dos comerciantes e artesãos da freguesia, caso haja pedidos a mais para a dimensão do espaço, teremos de equacionar um sistema de rotatividade anual dos participantes como acontece, por exemplo, no AgitÁgueda.

Em setembro, a Junta teve um importante investimento na reposição do antigo cruzeiro no largo onde, originalmente, este havia sido erguido. O que é que esse momento significou para a comunidade da Gafanha da Encarnação?

O cruzeiro é o último resquício de antiguidade na freguesia. A antiga igreja, infelizmente, foi posta abaixo. Eu era muito novo na altura, mas sei que se falava em questões relativas à estrutura e à segurança do edifício e ter-se-á optado pela demolição. Se fosse agora, tenho a certeza que seria restaurada. Mas, sendo assim, o cruzeiro acaba por ser o nosso último símbolo patrimonial de um tempo mais antigo. Com o padre Gustavo [pároco da Gafanha da Encarnação] arranjámos vontade e verbas para avançar com o projeto de reposição. O investimento teve alguma dimensão, mas a freguesia merecia que o cruzeiro voltasse ao local dele. Eventualmente, seria interessante enquadrarmos o monumento de outra forma, com uma renovação total daquele espaço. No entanto, em conversas com o presidente da câmara, decidimos não avançar já para essa remodelação em virtude das obras de saneamento na zona norte da freguesia.

Há um braço da ria a rasgar a meio a freguesia da Gafanha da Encarnação. A nascente, o centro da freguesia; a poente, a Costa Nova. Ao nível da gestão dos serviços e da proximidade com as pessoas, quais são as principais dificuldades de governar um território com estas características?

É claro que é mais fácil quando o território está todo junto, mas, sinceramente, não vejo grande dificuldade…

Por exemplo, ao nível social, ainda existe o estigma de “os do lado de cá” e “os do lado de lá”?

Existe e existirá sempre. Mas isso é uma característica cultural de todas as comunidades. Repare nas dicotomias entre as Gafanhas e Ílhavo, entre as zonas sul e norte da Gafanha da Encarnação ou entre as zonas sul e norte da Costa Nova… Quando estou do lado de cá, falam-me de “os da Costa”, quando estou na Costa Nova falam-me de “os da Encarnação”. E eu recordo sempre que somos todos da mesma freguesia. Cabe à junta de freguesia fazer essa ponte entre as duas comunidades. Pessoalmente, nunca senti nenhum tipo de estigma. Quando estudava aqui na Gafanha da Encarnação, os meus amigos de escola eram praticamente todos da Costa Nova; quando fui estudar para Ílhavo, era o único da Gafanha da Encarnação e fui muito bem integrado. Nunca sofri com esse tipo de situações, mas sei que o estigma existe. Quando foi necessário admitir mais um funcionário para a junta, o meu executivo optou por contratar uma pessoa da Costa Nova no sentido de também ela nos ajudar a fazer a ponte com aquela comunidade. Funciona tudo como uma pequena grande família.

Fazia sentido um balcão de serviços da Junta na Costa Nova?

Não me parece necessário. A minha equipa integra sempre pessoas da Costa Nova que me põem a par de tudo o que se passa. Chegámos a fazer uma reunião da Assembleia de Freguesia na Costa Nova – na altura, em homenagem à nossa querida Lurdes Vieira – e tivemos várias pessoas da Costa Nova presentes. Mas é tão pertinho que não se justifica.

O mercado da Costa Nova é frequentemente referido por chefs de renome, que o elogiam e se assumem fiéis clientes. Ao mesmo tempo, nas últimas semanas, tem-se vivido um clima difícil, com conflitos entre vendedoras e uma série de denúncias e apreensões que fragilizam a imagem daquele espaço. Que papel pode a Junta de Freguesia desempenhar nestas situações?

Essencialmente, um papel de sensibilização. O mercado da Costa Nova tem boas condições de higiene, de cozedura, de preparação e de congelação. Ainda assim, apesar de todos os cuidados, há problemas que podem ocorrer pontualmente. Este caso é diferente e, a meu ver, mais grave. Foram dois episódios recorrentes com a mesma pessoa. Já não é uma situação normal e está a prejudicar o mercado. Para estas situações fora do normal e recorrentes, o regulamento existe e as penalizações também. Neste momento, o departamento jurídico da câmara está a ver a melhor forma de incutir responsabilidades a quem prevaricou.

Depois há a questão do ato de denunciar. Quando estas situações vêm a público é porque alguém – e bem -, detetando uma situação anormal, chamou as autoridades. Eu faria o mesmo. Se alguém está ao meu lado a vender um produto que não está em condições, pode prejudicar-me a mim também. Em primeiro lugar, cada um tem o dever de ser fiscal de si próprio e, logo a seguir, os segundos fiscais da atividade no mercado têm de ser os vendedores. Noventa e nove por cento dos vendedores do mercado estão a atuar de acordo com as regras, mas há uma ou outra situação que é incontrolável.

Caberá a quem julga estes casos estabelecer a fronteira entre aquilo que é um azar e aquilo que é negligência.

Exatamente. Num caso destes – não sei se é permitido ao abrigo do regulamento – defendo um interregno da venda por parte da pessoa em causa, uma suspensão até se apurarem as causas do problema.

A propósito das recentes apreensões, houve vendedoras a aproveitar a atenção da comunicação social para reclamar melhores condições no mercado.

A Câmara Municipal de Ílhavo, nomeadamente o nosso presidente, tem visitado o mercado, em períodos em que o mesmo está fechado ao público, de forma a apurar problemas internos que possam existir. Também eu vou ao mercado semanalmente, vejo o que está bem e anoto o que pode ser melhorado. A cada mandato temos feito intervenções importantes para colmatar situações que precisavam de ser melhoradas. Quando vemos que há condições para uma intervenção, pedimos a compreensão dos vendedores, encerramos o mercado e fazemos as tais melhorias. Os vendedores têm ali um espaço de venda privilegiado. É importante compreenderem que a autarquia faz um investimento bastante avultado para manter o mercado aberto. Aquilo que os vendedores pagam para estar lá a vender é muito inferior ao custo de manutenção do próprio mercado. Entre receitas e despesas há ali um défice de quase cem mil euros.

A Costa Nova é uma das praias mais conhecidas e visitadas do país. Vantagens e desvantagens?

Há muitas coisas às quais só damos valor quando estamos fora. No ano passado, estava de férias na zona do Douro, num daqueles restaurantes típicos, e o dono, que tinha estado a passar férias na Costa Nova, disse-me maravilhas da nossa praia.

A limitação do espaço é brutal. O turismo tem aumentado cada vez mais e isso é muito bom. Mas, principalmente na época balnear, já não temos capacidade para mais pessoas, seja ao nível da praia, da restauração ou do estacionamento. Isto, claro, traz transtornos e constrangimentos. Eu vejo várias pessoas a criticarem o nó viário que, recentemente, veio substituir a rotunda da Barra. Quando era um cruzamento, era o caos. Mais tarde, a rotunda veio trazer melhorias significativas, mas a questão das cedências de passagem continuava a congestionar o trânsito. Este nó melhorou substancialmente o tráfego naquela zona. Quando as linhas de trânsito se aproximam do nó não há qualquer problema de escoamento. Quem vier do clube de vela em direção à ponte da Barra, mesmo no pico do trânsito, não pára um minuto. Do clube de vela para sul, o problema está nos veículos que, a partir das transversais, querem entrar na avenida principal. O mesmo se passa na Praia da Barra. Mas temos de conviver com isso. Até porque, sem o turismo, a nossa qualidade de vida era substancialmente menor.

É verdade que, no verão, nunca a Costa Nova teve tantos visitantes como agora. Mas, no inverno, talvez nunca tenha tido tão poucos. Nota isso

Imagine uma situação em que, numa noite fora da época alta, um grupo de amigos está em Aveiro e decide ir tomar um café à praia. Chegados ao nó, decidem virar à esquerda, para a Costa Nova. Chegam lá e não encontram nenhum estabelecimento aberto. Dão meia volta e vão para a Praia da Barra. Da próxima vez que se lembrarem de vir tomar um café à praia, provavelmente, já nem sequer viram para a Costa Nova. Eu já tentei alertar vários comerciantes para esta situação, mas é uma questão de mentalidade. Não se percebe que em março, abril ou maio, em que as noites tendem a ficar mais amenas e a convidar a um cafezinho na praia, o pequeno comércio esteja todo fechado. Eu vejo gelatarias na Praia da Barra e em Ílhavo abertas o ano todo e a vender o ano todo. Porque é que a da Costa Nova está fechada? Não percebo. Mas tenho pena. Não são as pessoas que não querem ir para lá. Sabem é que, na Costa Nova, não têm a oferta que deveriam ter.

Como é que vê a hipótese da reativação de uma travessia marítima entre a Gafanha da Encarnação e a Costa Nova? Faz sentido para o turismo? Podia ser uma alternativa útil para o problema de excesso de carros no verão?

Para o turismo seria bom, sim. As autarquias devem incentivar os privados a investir nesse tipo de serviços. Passei muitas vezes na barca com o Ti Adelino Ameixa e deixa-me saudades. Era espetacular. Em termos turísticos, seria muito interessante, mas sempre no âmbito privado.
No entanto, a meu ver, a reativação da travessia não iria ajudar a combater o excesso de carros na Costa Nova. Cada vez mais as pessoas querem levar o carro para a toalha…

Recentemente, a oposição voltou a insistir na ideia da criação de um ponto de degustação e venda de ostras na frente-ria da Gafanha da Encarnação, como forma de valorização da Ria e da atividade dos mariscadores. Há cerca de um ano, defendia que essa ideia não fazia sentido por não haver tradição de consumo deste produto. Continua fora de questão?

Sim, a minha posição mantém-se. Custa-me a perceber que as propostas apresentadas pela oposição se restrinjam a cinquenta ou cem metros da freguesia. É um vazio de ideias. Ano após ano, apresentam sempre as mesmas propostas inexequíveis, a maior parte das quais não fazem sentido. Insistem muito na promoção de um festival da ostra, na criação de um ponto de degustação e venda de ostra e na construção de uma casa-de-banho para a malta da ostra. Para eles, a freguesia não passa de ostras. E eu gosto de ostra! Mas quando, em Assembleia, pergunto ao responsável da oposição pela apresentação destas propostas se ele gosta de ostras, diz-me que não. Ora, se nós não temos tradição de consumo, um festival de ostras estaria destinado ao fracasso.

Para além disso, eu não vejo os próprios mariscadores a tentar promover um festival desses. A Junta de Freguesia põe-se sempre do lado das pessoas que tentam promover alguma atividade: o Mercadinho de Natal surgiu de uma conversa com os comerciantes; a Corrida Popular da Costa Nova veio de uma proposta da Atletas.net; quando a APARA demonstrou vontade de criar o Festival da Sardinha, a Junta de Freguesia também demonstrou a sua disponibilidade para apoiar. Quando estamos convictos que a iniciativa pode ter sucesso, apoiamos. Neste caso, é a própria pessoa que faz a proposta a dizer que não gosta e não consome ostras.

Eu gosto de ostras, tenho muitos amigos produtores de ostras e fui dos primeiros produtores de ostras do município. Não tivesse tido, no segundo ano de produção, um azar muito grande, com um problema de mortalidade que me fez perder algum dinheiro, e talvez tivesse mesmo abandonado a minha profissão para me dedicar àquela atividade.

Para além de tudo isto, como já foi explicado em várias ocasiões, a Câmara Municipal de Ílhavo tem um projeto comunitário para a promoção do marisco da ria em vários restaurantes. É por aí que temos de começar. A promoção da marca “ostra da ria de Aveiro” é muito mais importante do que fazer um festival onde ninguém vai comer.

No dia 9 de dezembro, celebra-se o 15.º aniversário da Gafanha da Encarnação enquanto vila. O que esta elevação representou para o desenvolvimento da freguesia ao longo destes anos?

Há quem tenha um certo orgulho em viver numa vila. Eu, particularmente, não faço uma distinção assim tão grande entre vilas e aldeias. Aliás, cada vez mais a qualidade de vida é melhor nos meios mais pequenos como as aldeias do que nas grandes cidades. Mas é certo que, ao longo destes 15 anos, a freguesia tem-se desenvolvido à sua dimensão, com novas infraestruturas, novos serviços, mais associativismo e investimentos que visam o aumento da qualidade de vida. Nos próximos tempos, vamos ter a obra de saneamento que será o maior investimento alguma fez feito na Gafanha da Encarnação.

Se tivesse de escolher uma prenda para dar à vila da Gafanha da Encarnação, qual seria?

Já que ninguém nos proíbe de sonhar, sonhemos em grande: escolhia o centro cívico – um projeto que, para ter a dimensão desejada, exigirá o envolvimento e as vontades de muitos proprietários e que, por isso mesmo, será sempre um projeto a médio-longo prazo; e também um outro empreendimento de impacto brutal que é a reestruturação do relvado da Costa Nova. Pensar aquele espaço de outra forma, imprimindo-lhe modernidade, tornando-o num parque com zonas específicas (para concertos, descanso, atividades de lazer) e, eventualmente, criar algumas estruturas de apoio como umas casas de banho ou um bar. Tudo isto garantindo a preservação da vista para a ria, um dos patrimónios do município. Teria de ser um projeto muito bem pensado por quem perceba do assunto, mas que acho que seria importante para a freguesia.

Entrou na segunda metade do segundo mandato autárquico à frente dos destinos da Junta de Freguesia da Gafanha da Encarnação. Pensa recandidatar-se a um terceiro mandato?

A Lei limita – e muito bem – a quantidade de mandatos. Na minha opinião, para o desenvolvimento de um trabalho, um mandato de quatro anos é curto. Dois mandatos talvez seja o ideal para alguém desenvolver uma ideia. É claro que, com outros capitais, o desenvolvimento seria diferente. Há muita coisa para fazer, mas é preciso muito dinheiro. Por outro lado, eu gosto pouco de protagonismo, gosto de passar despercebido, não gosto de alimentar polémicas, não estou cá para me promover. Mas uma coisa é certa: é possível identificar pelo menos uma obra no terreno em cada ano dos nossos dois mandatos. Se fizermos o mesmo exercício nos últimos 25 ou 30 anos e quisermos identificar cinco – ou até só três – começa a ser difícil comparar. Se os orçamentos eram mais ou menos iguais, onde é que está a diferença? Vontade, gestão, poupança e investimento.

Quanto ao futuro, já no último mandato decidi muito em cima da hora. A decisão passa obrigatoriamente pela família, pela saúde e por uma análise da conjuntura. Mas não ponho de parte [a hipótese de recandidatura a um terceiro mandato].

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