Filarmónica Gafanhense quer continuar a afirmar-se nos grandes palcos

Orquestra Filarmónica Gafanhense assinala aniversário com um concerto comemorativo. Com 183 anos, é a associação mais antiga do Município de Ílhavo.

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PEDRO ESTEVES/FILARMÓNICA GAFANHENSE

Há melhor maneira de celebrar o aniversário de uma orquestra do que com um concerto? A Orquestra Filarmónica Gafanhense, a mais antiga associação do Município de Ílhavo, apresentou, no passado dia 24 de novembro, na Fábrica das Ideias da Gafanha da Nazaré, o concerto que assinalou o seu 183.º aniversário.

Numa primeira parte, contou com a estreia de “Trégua”, composta para viola de arco, eletrónica e banda sinfónica por José Valente (Prémio Carlos Paredes 2019). A peça foi interpretada ao vivo pela orquestra da Gafanha da Nazaré e pelo próprio José Valente, para quem foi “uma honra e um prazer enorme compor e tocar com esta filarmónica”. O compositor lisboeta não quis levantar o véu sobre os pormenores de uma provável nova colaboração com a Filarmónica Gafanhense, deixando, no entanto, nota de que “este é só o primeiro passo de uma aventura incrível”.

Na segunda parte do espetáculo, a orquestra recuperou alguns dos arranjos que foi apresentando, em diversos contextos e para diferentes públicos, ao longo do último ano. E que ano!

Último ano trouxe muitos “projetos gratificantes”

Num ano particularmente intenso para o grupo, Paulo Miranda, presidente da direção da Filarmónica Gafanhense, destacou uma mão cheia de projetos que “marcaram profundamente a vida da orquestra”: ainda em dezembro do ano passado, interpretaram, em palco, a banda sonora de “Play, the film”, uma performance da companhia Cão Solteiro e de André Godinho que misturava o teatro e o cinema; no dia 25 de abril, foram responsáveis pela abertura das comemorações da Revolução dos Cravos no palácio de São Bento, residência oficial do primeiro ministro; em agosto, a orquestra da Gafanha da Nazaré abriu o Festival Bons Sons, em Cem Soldos, Tomar e, dois dias depois, no Festival do Bacalhau, subiu a palco para “um concerto memorável” com Dino D’Santiago; por fim, a 31 de outubro, no âmbito da Milha – Festa da Música e dos Músicos de Ílhavo – apresentou, na Casa da Cultura, a primeira parte da banda sonora de “Heróis do Mar”, num projeto de recuperação histórica da banda sonora e das vozes do único filme português de ficção sobre a pesca do bacalhau.

No seguimento desta revisão do último ano, Paulo Miranda fez questão de sublinhar o “papel fundamental” de Luís Ferreira, diretor artístico do projeto 23 Milhas, naquilo que tem sido a projeção da orquestra em grandes palcos e a criação de pontes para novos desafios. Um reconhecimento que viria a ser reforçado por Fátima Teles, vereadora da Câmara Municipal de Ílhavo, para quem o atual projeto cultural do Município de Ílhavo “não são só festas e festinhas”, mas sim eventos que visam o encontro das pessoas, o enriquecimento pessoal dos participantes e a valorização do sentimento de pertença a uma comunidade. Chamada a dirigir umas palavras ao auditório da Fábrica das Ideias neste concerto de aniversário, Fátima Teles não escondeu o “grande orgulho” que a autarquia sente pelo trabalho da Orquestra Filarmónica Gafanhense, reforçando a disponibilidade da câmara para continuar a ser parceira daquela instituição.

Maestro “já está no coração” da comunidade

Outro parceiro essencial da Filarmónica é a Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré. Em representação do executivo, José Arvins congratulou a Filarmónica por mais esta “inequívoca demonstração de força e vitalidade”. O secretário da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré falou aos dirigentes, associados e músicos que “têm proporcionado espetáculos fantásticos, momentos únicos e contribuído para levar o nome da Gafanha a todo o país”. Deixou ainda uma palavra particular ao maestro: “O Henrique Portovedo já é nosso. As pessoas da Gafanha da Nazaré já se aperceberam do seu potencial, da sua sensibilidade e dos valores humanos que o norteiam e já o acolheram como seu”. Prova maior disso mesmo, realça José Arvins, é o facto de a comunidade da Gafanha da Nazaré já reconhecer Portovedo, natural de Anadia, como “gafanhão”.

Banda ou orquestra?

Há vários fatores que podem ajudar a distinguir bandas, bandas sinfónicas e orquestras. Se se tiver em atenção os instrumentos que as compõem, as bandas distinguem-se pelos sopros, nas bandas sinfónicas também estão presentes alguns instrumentos de cordas, como o violoncelo e o piano, e na orquestra há instrumentos de todas as famílias, sendo o papel principal assumido pelos instrumentos de cordas.

Outra forma de distinguir estes três grupos é pelo reportório. Por norma, as bandas têm uma maior proximidade à cultura popular e vivem de adaptações de peças clássicas e rapsódias de música ligeira, apresentando, nas palavras do maestro Henrique Portovedo, “música de entretenimento”. Por outro lado, as orquestras primam por uma abordagem mais erudita e vivem sobretudo de projetos artísticos diferenciadores. Ora, tendo isto em atenção, em que é que ficamos quanto à Filarmónica Gafanhense?

A resposta parece não estar na análise daquilo que o grupo é, mas sim naquilo que almeja ser. É por isso que, como forma de se “refrescar ideologicamente”, de provar que tem todas as condições para ir além das festividades populares e procissões e de vincar a sua presença em palcos mais eruditos, a Filarmónica Gafanhense tem assumido uma “nova identidade” enquanto orquestra. “Somos uma banda sinfónica, mas a verdade é que a nossa filosofia e a nossa atitude não podem ir de encontro ao conceito mais vulgarizado de banda de entretenimento”. “A Gafanha da Nazaré tem, nos seus músicos, uma matéria-prima riquíssima. A grande meta é fazer de cada um deles um artista”, explica Henrique Portovedo.

Este é também um manifesto de intenções para com a comunidade. “É nosso objetivo estimular nos músicos, mas também no público o pensamento e a sensibilidade artística por os considerarmos fundamentais para o desenvolvimento do ser humano”, remata o maestro.

183 anos: de Ílhavo à Gafanha da Nazaré

Os relatos que chegaram aos dias de hoje dão conta que, no ano de 1836, surgia em Ílhavo a Phylarmonia Ilhavense. Ao longo do primeiro século de vida este grupo terá passado por altos e baixos, com períodos de grande vigor e entusiasmo e outros em que a projeção era menor e as dificuldades agudizavam-se. No entanto, em meados dos anos de 1970, e ao contrário do que se passava na Gafanha da Nazaré, eram muito poucos os que queriam aprender música em Ílhavo. É neste contexto que é criada a Escola de Música Gafanhense e, anos mais tarde, a 13 de outubro de 1986, nas comemorações dos 150 anos da instituição, que a então Associação Musical Filarmónica Ilhavense altera os estatutos, muda-se para a Gafanha da Nazaré e passa a designar-se Filarmónica Gafanhense.

Nos dias de hoje, entre concertos em auditório e apresentações públicas de várias naturezas, a Orquestra Filarmónica Gafanhense tem um calendário muito preenchido. Para além disso, como Paulo Miranda referiu, destacam-se os projetos artísticos desenvolvidos em parceria com o 23 Milhas e, claro, a atividade da sua escola de música, com várias dezenas de alunos.

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