Crónica de jardinagem

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Em forma de presente natalício antecipado, no último mês tivemos a notícia dos avanços da requalificação do Jardim Henriqueta Maia e de toda a zona envolvente, uma transformação profunda que irá, forçosamente, mudar a vida no centro da cidade.

O Jardim Henriqueta Maia é, para mim, um dos lugares mais importantes da cidade. Não pelo que é, mas pelo que pode ser.

Todas as cidades precisam de um espaço público habitável. Precisam de comércio, de restauração, de cafés e de bares (as ciências sociais o dizem: os tais ‘third places’ estudados pelo sociólogo Ray Oldenburg nos anos noventa) e de espaço público puro que, não pertencendo a ninguém, é de livre acesso, livre uso, partilhado com base em regras definidas democraticamente. Um espaço de igualdade, de encontro, de comunidade.

O jardim tem, pela sua localização, pelas suas valências, as condições ideais para constituir este espaço e para assumir esta centralidade. E tem-no sido, amiúde, quando programado para tal em atividades promovidas pelos organismos autárquicos ou associativos que se propõem a isso, e bem, entendendo esta necessidade. Mas não tem existido uma materialização significativa dessas experiências numa rotina de habitação daquele lugar. Não que tenha que ser esse o objetivo da programação, mas seria bom que esse fosse um dos seus subprodutos.

O facto é que a cidade, tendo um jardim à mão de semear, parece preferir guardar as sementes em casa.

Talvez esta requalificação venha a introduzir uma nova configuração que melhore a relação da cidade com este espaço e que nos leve mais a ele. Para conversar, para ler, para dormir uma sesta, para reunir com colegas conspiradores. Acho que isso teria um efeito tremendo na cidadania, na comunidade e na economia locais.

É certo que os motivos para que tal não aconteça excedem, em muito, a própria configuração do jardim.

A falta de discussão pública em torno desta requalificação é, antes de tudo, um sintoma evidente dessa falta de envolvimento cívico e político que a cidade tem consigo própria. Isto não significa que deveria ter havido contestação, nem que não deveria, mas que seria normal que a cidade o tivesse discutido, se tivesse mostrado interessada em discuti-lo. Assim, ficamos só com uma sensação de unanimismo que depois não se verifica nas queixas que ouvimos todos os dias – fora de tempo, fora do lugar e fora da consequência.

Acredito que todas estas coisas estão relacionadas. Temos esse jardim, que é o espaço público, à mão de semear mas não o semeamos, não o cuidamos, por não vivermos nele, delegando os seus cuidados para, em dia de festa, o ir visitar numa espécie de turismo caseiro. Não vemos que é de nós, o jardim, como diria o outro.

Espero mesmo, com uma esperança sincera, que este jardim, reformulado, adaptado às exigências modernas, dê o mote para que todos nos tornemos mais zelosos dele, para que o ocupemos, para que nos vejamos mais uns aos outros e vamos discutindo mais estas coisas antes de serem factos consumados. Que o jardim seguinte se discuta neste que aí vem.

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