É, para si, importante ter a sua assinatura no projeto do futuro do Jardim Henriqueta Maia? Sentiu responsabilidade acrescida por estar a desenhar algo para a sua terra?

Responsabilidade tenho de ter em todos os projetos. Mas conheço bem Ílhavo, sei bem dos problemas com que sofre há muitos anos. Esta cidade não tem conserto. Eu comecei a lidar mais de perto com a câmara municipal no tempo do engenheiro Galante, quando projetei o edifício da câmara, e fui alertando para algumas coisas, mas nunca ninguém teve coragem para fazer um plano de urbanização para Ílhavo. Fizeram-se alguns planos de pormenor, mas um plano geral que resolvesse os problemas estruturais, ninguém teve coragem de fazer.

Ílhavo tem quatro caminhos para a água, quatro vias vão dar à Malhada. Dos dois mais antigos, um é formado pela antiga Rua Nova – a Rua João Carlos Gomes -, a antiga rua do Adro – a rua Serpa Pinto – e a antiga Rua Direita – a Rua Arcebispo Pereira Bilhano – e outro é formado pelas atuais Rua de Alqueidão, Rua José Estêvão e Rua do Casal; esses caminhos foram, mais tarde, reforçados com arruamentos novos – a Avenida Mário Sacramento e a Avenida 25 de abril. Ora, no sentido norte-sul só existe uma via – a antiga Estrada Nacional 109.

Ao afirmar que “Ílhavo não tem conserto”, considera que o grande problema foi a falta de planeamento das vias?

Sim. Repare: o centro de Ílhavo era a Rua Direita, a rua dos médicos, das farmácias, das lojas, dos serviços, da escola velha e até da antiga câmara municipal. Na Rua de Alqueidão vivia a gente da pesca, os lavradores e a aristocracia – os Maias e os Rebochos. Toda aquela zona da Câmara Municipal às Piscinas era uma espécie de um vale de erva, difícil de cruzar. Atravessava-se na Avenida Manuel da Maia, que começa em Alqueidão e acaba na igreja, não tendo continuidade nem para norte nem para sul, ou na Avenida da Senhora do Pranto, que ligava o núcleo da Lagoa ao outro templo, a capela da Senhora do Pranto. Ou seja, só para ir à missa é que as pessoas que viviam a norte se encontravam com as pessoas que vivam a sul desse vale. Mais tarde, o centro acabou por deslocar-se para a Avenida 25 de abril e o Jardim Henriqueta Maia concentrava as atenções dos dois lados da antiga vila. Toda a gente vinha para o jardim, era ali que se encontravam. Mas as ligações norte-sul continuaram a não existir. Eu fui falando com os presidentes de câmara e com os serviços técnicos da autarquia sobre a necessidade de criar essas ligações.

A meu ver, havia duas coisas a fazer: a primeira era prolongar a rua da Venezuela, a nascente do Hotel de Ílhavo, para sul, através da Rua D. Júlio Tavares Rebimbas até junto do atual quartel dos Bombeiros e, para norte, para a zona de Alqueidão. Na altura havia lotes livres na Avenida [Mário Sacramento], onde não teria sido necessário partir nada. Em Alqueidão partir-se-ia uma casa ou duas, mas essa rutura estaria ao alcance de qualquer câmara. Não se fez. Outra solução era desenvolver uma circular que desviasse o trânsito do centro. A poente, um troço dessa circular até veio a ser construído. A nascente, não. Assim, quem chega a Ílhavo proveniente da autoestrada (A17) enfia-se para onde? Para o coração da cidade, não tem outro remédio. É a tendência óbvia. O que acontece é que, quando finalmente se atinge a circular (a poente), já se atravessou toda a cidade.

O facto de todo o trânsito vir confluir ao centro causa muitos transtornos.

Ílhavo é um ovo estrelado, uma cidade radial em que todos os pontos vêm dar ao centro – “a gema”. E, como em todas as cidades radiais, tem de haver circulares com vias distribuidoras bem colocadas. Este é um dos principais problemas de Ílhavo. Mas há mais: Ílhavo tem um problema de falta de população. Nós podemos ter os jardins todos que quisermos, com mais ou menos árvores, com mais ou menos rotundas, mas isso não resolve o problema da falta de população. Ninguém vem para aqui só porque o jardim está arranjado. Ílhavo é uma cidade com ruas demasiado estreitas que não comportam automóveis. E todos temos vivido e continuamos a viver em função do automóvel.

Aos poucos começa a fazer-se o caminho inverso.

Mas é preciso criar as condições para inverter o caminho. O jardim vai ficar mais bonito e mais confortável; a nova rotunda vai trazer fluidez ao trânsito; na Avenida 25 de abril vamos limitar o tráfego às duas faixas do lado da escadaria da junta de freguesia e reverter as atuais faixas mais próximas do jardim para percursos cicláveis e pedonais; também junto aos eucaliptos, só a faixa mais próxima do Café Estádio vai manter-se para circulação automóvel.

A redução do espaço para o automóvel é uma grande tendência, até nas grandes capitais. Espera que isso traga mais ilhavenses à rua?

Eles não estão cá! Quem é que vai trazer os ilhavenses da Vista Alegre, do Corgo Comum ou do Bairro dos Pescadores para o centro de Ílhavo? Os becos estão vazios.

Então não é um contrassenso estar a investir tanto dinheiro numa obra destas quando não temos gente para usufruir dela?

É preciso criar as condições para o regresso. Estamos a dois passos de uma universidade que está instalada numa cidade esgotada no que diz respeito à habitação. Nós, em Ílhavo, temos habitação a mais. Quem é que pode promover a vinda dos estudantes para cá? A Câmara tem de ser mais proativa, tem de dar condições e estímulos. Não se faz nada sem estímulos. Já ouviu falar em fazer um plano de urbanização para a cidade? Nunca ouviu.

Era essencial ter esse plano de urbanização?

Era! O Plano Diretor Municipal traça regras gerais, mas depois é ao nível de um maior pormenor que se fazem os traçados viários fundamentais e que se tomam as decisões estratégicas sobre o território. As grandes orientações gerais de circulação não chegam. Se reparar, em Ílhavo não há uma avenida coerente. Da rotunda do Mercado à rotunda da Malhada, a Avenida 25 de abril muda três vezes de perfil: ora com duas, ora com quatro faixas; ora com candeeiros a meio, ora sem candeeiros; com várias dimensões diferentes. Nada disso foi pensado. Foi tudo feito por remendos.

Enquanto ilhavenses, o seu discurso gera-nos alguma preocupação. Tememos que este projeto possa resultar em mais um remendo. Não estava na altura de parar e, antes de mais, fazer um plano de urbanização para a cidade?

As duas coisas são compatíveis. Ninguém vai levar a mal nós pormos o jardim em condições. Quando o jardim foi construído, no início do século XX, não era atraente para ninguém. Era um desertozinho murado com arvorezinhas raquíticas. Mas depois foi-se tornando num local de encontro de grande relevância. Entretanto, sofreu obras de reformulação, nos anos de 1950, e novamente, no início dos anos 2000. Essa última reformulação foi a pior de todas!

Porquê?

Porque não trouxe nada de novo. Destruiu muros, forrou-os de maus materiais – umas madeiras que empenavam quando envelheciam – e fez-se algo que tirou valor ao jardim. O Jardim Henriqueta Maia era conhecido como “jardim do monumento”. O monumento [aos mortos da Grande Guerra] tinha mais um degrau do que o que tem hoje e tinha um gradeamento à volta que lhe dava uma dimensão e uma dignidade que ele perdeu completamente.

E o que é que lhe vai acontecer com a nova intervenção?

Vou rebaixá-lo, de forma a ganhar um pouco da dimensão que tinha antigamente, e fazer uma cruz de guerra no chão na mesma pedra do monumento em que o bordo exterior serve de banco corrido. Nos braços da cruz serão gravados alguns poemas de Jorge Sena, Fernando Pessoa, Manuel Alegre sobre a guerra. Eu gostava que aquele padrão deixasse de ser um monumento aos mortos da Grande Guerra e passasse a ser um memorial aos mortos das guerras todas: aos que morreram no mar, na Segunda Guerra Mundial, e aos que morreram no Ultramar, por exemplo. Se entenderem, poder-se-ia também gravar os nomes dos mortos na pedra.

Uma das críticas levantadas tem a ver com o facto de, supostamente, este processo estar a ser feito nas costas dos ilhavenses. No entanto, vimos uma resposta sua nas redes sociais, a recordar que houve, há cerca de um ano, uma sessão para explicar o projeto na qual poucas pessoas apareceram.

Exatamente.

Isto deixa-o revoltado?

É normal. Faço planeamento há muitos anos e colocar as pessoas a participar é muito difícil. Já estou habituado. Só em circunstâncias muito especiais é que as pessoas participam. A sessão de esclarecimento foi feita no antigo quartel dos bombeiros, de portas abertas. Não sei se terá sido convenientemente divulgada.

Quais são, para si, as principais marcas deste projeto?

Não fiz o projeto para ter marcas. Tentei encarar as coisas com simplicidade e analisar o que se passa para poder apresentar propostas. O que ainda resta do antigo muro vai desaparecer completamente. Aquelas peças (vasos e esferas), que não são originais, são a memória de uma das remodelações que o jardim sofreu, não têm nível suficiente para serem preservadas. A praça que vai surgir, corresponde à área do antigo mercado, recupera os seus limites e define-se por um pavimento diferente. Aquele espaço está roto, nunca foi feito para ser uma praça. Por isso, vamos limitá-lo à custa de elementos vegetais. Ainda sobre a praça, no início, não me queriam deixar tirar a estátua do bispo, mas depois lá consegui e vou levá-la para trás da igreja.

O que não é muito consensual, pois não?

Faça-se uma votação e veja-se onde é que querem pô-la! Mas ela vai ter de ir para algum lado.

Nas imagens que têm vindo a ser divulgadas pela Câmara Municipal, existem duas estátuas: a do bispo D. Manuel Trindade Salgueiro, recolocada na zona do atual WC público do jardim, e uma segunda estátua não identificada nas traseiras da igreja matriz.

Essas imagens são de um estudo preliminar. Ainda não há imagens definitivas do projeto. Eu não recebi um caderno de encargos da câmara. Disseram-me que era para requalificar o jardim, eu fui fazendo e eles foram dizendo o que achavam. Há, de facto, imagens que eu fui fabricando para testar o meu próprio projeto e nas quais aparecem duas imagens: um bispo no canto da praça e outro bispo junto à igreja. E há sempre lugar para mais uma estátua…

Outro bispo? Falava-se de um monumento de homenagem aos bombeiros…

Nunca ouvi falar disso. Ouvi falar, sim, do D. Júlio Tavares Rebimbas que, de facto, foi um homem com uma visão para Ílhavo que o Trindade Salgueiro nunca teve. Eu admirava o prior Rebimbas por ser uma pessoa muito simples, mas uma figura admirável. Acho que seria uma homenagem interessante. No entanto, para mim, esse assunto está definitivamente resolvido. Foi o próprio presidente da câmara que me disse que a estátua do bispo vai para as traseiras da igreja. E é lá que ela está bem, na minha opinião. Será lá a entrada para o museu [Centro para a Valorização e Interpretação da Religiosidade ligada ao Mar] que terá peças dele. Todos os visitantes terão de passar pela estátua para entrar naquele espaço. É a solução perfeita e a opção que eu defendo. Mas se quiserem pô-la noutro sítio…

Mas podem alterar-lhe o projeto sem a sua autorização?

Os projetos podem sempre ser alterados. Não acho que a minha obra seja sagrada. Pelo contrário, tento sempre que os meus edifícios aguentem alterações. A câmara já foi alterada mil vezes. No dia em que o edifício da câmara municipal foi inaugurado recebi muitas críticas quanto à sua dimensão. Diziam-me que nunca mais se iam encontrar uns aos outros lá dentro. Eu respondia-lhes “Deixem estar que ainda vai ser preciso”. Reservei um espaço cá em baixo para exposições, manifestações culturais e para atendimento turístico; há pouco tempo pediram-me para alterar a configuração desse espaço de forma a instalar outros serviços porque a câmara está esgotada. Até o sótão se aproveitou!

Nessas tais imagens preliminares, na zona que divide a nova praça do jardim, está prevista uma estrutura envidraçada. Pode adiantar-nos do que se trata?

Não é para fazer. Começou por me ser encomendado, mas depois foi-me dito que já não queriam.

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