O Pandilha

Retratos Alaminuta

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Já não me lembro de quem é que estava à mesa naquele dia. O Pandilha estava. E isso é inesquecível.

Aquele restaurante ali para os lados de Bustos, começou por servir a sua especialidade numa terrina de cinco litros. Uma condimentada sopa de feijão bem entulhada de carne de porco e os adequados tesouros da horta. Mal a terrina pousou, o Pandilha abraçou-a, com o braço esquerdo como se de uma relíquia se tratasse e delimitando com o direito, em semicírculos, o espaço interdito a veleidades e aproximações. Espreitou, aspirou fundo todo o seu aroma, voltou a mirar bem, com a concha de alumínio, mexeu e remexeu o divino conteúdo, vasculhou cada pesunho, cada naco de nabo, cada folha de couve galega… até que soltou um grito de pânico e lamentou choroso com a sua sublime voz de falsete:

“Não há direito, não tem vinhos de alho. Ó da caaaaaasa! Nem uma tripinha sequer. Ó meu rico coirato, porque me abandonaste? Acuuuuudam! Ó meu bucho, buchinho, buchão, anda cá ao Carlão. Ó meu bucho, meu rico buxo, papar-te é um luxo.”

Logo exigiu, com a castiça veemência que o caracterizava, esclarecimento imediato para tal blasfémia, ao que o patrão, acudindo na hora, justificou-se com o criado, novato na casa, e por isso o seu compreensível desconhecimento dos clientes especiais:

“Desculpe, ó Sô Carlos Alberto, como a dose habitual não leva vinhos de alho, o garoto não sabia. Desculpe! Vem aí, imediatamente, a sua dose… e virá bem aviada”.

O Pandilha afastando aquela desprezível terrina para o centro da mesa agradeceu:

“Amigalhaço, isso é que é falar! Estás perdoado. E olha que se não fosse por ti, tinha virado esta espelunca toda de pernas p’ró ar por semelhante desfeita. Mas como és um gajo porreiro, estás desculpado. Já agora, sabes como é, gosto dos coiratinhos altinhos e se não tiverem a barba feita, tanto melhor! E pouco ou nenhum puré – papas praquê rapaz? – tenho de tratar bem da minha querida flatulência, ninguém me dá outra…”

Enquanto decorria este palestramento eu e os outros salibantes comensais, vazámos, enquanto o diabo esfregou um olho, a terrina da ofensa e mandamos vir outra, igual à que o Panda consumiu sozinho acompanhado de uma pichorra de grande litrada e de uma broa onde se pousava a sua mão esquerda.

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