Até sempre, Teresa

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Quando, em dezembro, falei com a Teresa, nunca imaginaria que fosse a última vez. Senti, na sua voz, o cansaço de quem estava em plena prova mas, típico de quem não se deixa vencer, não ia desistir!

Desde miúdo que me lembro de ouvir falar na atleta olímpica, ali da Gafanha, e que era do Sporting. Os poucos quilómetros que nos distanciavam não eram impedimento de me sentir orgulhoso por termos uma atleta daquele calibre cá na terra.

“Conheci” a Teresa, sem ser por fotografias de jornais ou imagens na televisão, num passeio que fiz a São Jacinto. Lá estava ela, pintada nas paredes do complexo desportivo. Anos mais tarde, fiz a apresentação do almoço de aniversário do Núcleo Sportinguista de Ílhavo e uma das homenageadas era a Teresa. Foi com um orgulho enorme que a chamei.  E senti-me pequenino quando a cumprimentei. Estava junto à grande Teresa Machado! Hiper-recordista! A melhor lançadora de sempre! Quatro vezes atleta olímpica! Falámos um pouco, trocámos contactos e, uns tempos depois, foi nossa convidada no programa “Segunda Parte”, na Rádio Terra Nova.

Sinceramente, nesse dia, senti vergonha. A Teresa, que nos últimos dias andou nos jornais, com tantas notas de pesar, naquela altura andava a fazer limpezas. Não digo que é desprestigiante. Nunca! Mas quem tanto deu ao país e ao desporto nacional, merecia mais. Muito mais! Por parte dos clubes que representou e por parte de um país que, basicamente, só olha para os jogadores da bola e, mesmo assim, nem para todos. Mas a Teresa era uma lutadora! Nunca baixou os braços e tirou o curso de auxiliar de fisioterapia. Quando, em dezembro, falei com ela, senti o seu orgulho em ter conseguido esta “medalha”. E eu também fiquei orgulhoso!

No ano passado, por altura do Gafanha Cup, estive com ela. Foi a madrinha do torneio. Quando a organização me disse que a Teresa ia ser a madrinha, voltei a sentir-me um miúdo na noite de Natal à espera de abrir as prendas. Nunca mais chegava a hora. 

Na cerimónia de abertura, a Teresa não pôde estar presente. Os tratamentos que estava a fazer tinham-na deixado enfraquecida. Não foi à abertura, foi ao encerramento! Eu que não sou de andar a pedir fotos com “famosos”, nesse dia, pedi que se deixasse fotografar comigo. Ela, com a humildade que todos reconhecemos, prontamente, acedeu. E foi o filhote dela o fotógrafo. Quando olho pra essa fotografia, vejo o meu olhar de miúdo que acabou de abrir o tão desejado presente de Natal. Estava ali, junto à maior!

Em dezembro, a propósito da homenagem do Agrupamento de Escolas e da Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré que batizou o pavilhão com o nome Teresa Machado, liguei-lhe. Estivemos quase uma hora ao telefone. Falámos na homenagem, da carreira, da vida.

Sentia na sua voz a debilidade de quem está a lutar contra algo poderoso. Mas, também, a força de quem não se deixa vencer. Senti a força de quem, sem condições de treino, usava pesos improvisados, locais inusitados e a grande vontade de ser, humildemente, a melhor.

Há uns meses, um dos seus recordes, o do lançamento do peso foi batido. Mas ainda detém, desde 1998, o recorde do lançamento do disco. Dizia-me que se fosse hoje, com as condições que existem atualmente, teria ido mais longe. E eu acredito.

A Teresa vai ficar imortalizada na História do lançamento, do atletismo e nos nossos corações. Que todos os jovens estudantes ao entrarem no Pavilhão Teresa Machado, se inspirem na sua história e exemplo.

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