Esta edição d’O Ilhavense fica marcada pelo falecimento de Senos da Fonseca, facto que, além do luto, nos impele a que recordemos o legado que deixa na nossa comunidade.
Porque escrevo nas páginas deste jornal, devo começar por dizer que se o faço em muito lhe devo a ele. Foi ele quem deu início ao processo de recuperação deste projeto, no final de 2018, que permitiu reunir um novo corpo acionista, que permitiu que voltasse a ser novamente impresso em abril de 2019. Importa não esquecer que, se hoje temos em Ílhavo um jornal centenário, em muito lho devemos, não só pelo que fez nesse momento como no contínuo apoio que sempre entregou à sua direção e gerência.
Mas isto, que é muito para nós, será talvez apenas um detalhe numa extensa e rica biografia repleta de intervenção cívica, associativa, cultural e literária. Senos da Fonseca deixa uma vasta obra publicada, e em particular um contributo importante para o avanço do conhecimento acerca da história local. Além disso, deixa uma marca significativa nos lugares por onde passou: no Illiabum Clube, no Clube de Vela Costa Nova, no CASCI ou nos Bombeiros Voluntários de Ílhavo. E deixa, ainda, a marca de alguém com uma intervenção pública, política e cívica comprometida com as suas convicções e com a sua comunidade.
O que aprendi a admirar-lhe, no entanto, foi um compromisso mais profundo com uma liberdade radical (não no sentido de ser extremada, mas no sentido de lhe ser enraizada, estrutural ao seu comportamento). Longe de uma certa duplicidade ou ambiguidade tática e sonsa que marca muito os nossos dias, afirmava-se por uma frontalidade e abertura ao dissenso (e mesmo à polémica) que nos farão muita falta. Era, nesse sentido, alguém com quem talvez tenhamos tido muitas vezes tanto o prazer de concordar como de discordar. E talvez por isso, fazermos dele agora uma figura consensual ou unânime lhe fosse fazer pouca justiça, a ele e ao modo como sempre pautou a sua conduta pública enquanto homem livre e democrata.
Deixa-me por isso particularmente satisfeito poder, à sua partida, escrever sobre esse legado nas páginas de um jornal no qual publicou as suas primeiras opiniões, ainda antes do 25 de abril, já com reconhecível coragem e liberdade. O lugar, por excelência, para a tomada de posição, para o confronto de ideias e para o exercício da liberdade. Um lugar que sempre defendeu, acarinhou e pelo qual se bateu até ao fim.
–//–
Publicado no nº 1397 d’O Ilhavense,
de 15 de maio de 2026.
Assine o jornal aqui.










