No dia 25 de maio, no âmbito da iniciativa da biblioteca da Escola Secundária Homem Cristo “Homem Cristo: Jornalista e Cidadão”, tive o prazer de, juntamente com a diretora da Aveiro Mag, Maria José Santana, participar numa conversa com alunos dedicada ao tema “Jornalismo local, memória e impacto na comunidade”. Esta conversa, integrada num projeto evocativo do legado de Homem Cristo, no qual se inclui uma exposição que estará patente até ao dia 5 de junho no edifício ATLAS, na Biblioteca Municipal de Aveiro, encaminhou-se, inevitavelmente, para o tema dos problemas que o jornalismo, em particular o local, vai enfrentando nos dias de hoje. Em particular, a conversa permitiu diagnosticar um distanciamento significativo das novas gerações face aos meios de comunicação social formais – um problema que não é apenas dessa geração, já que é transversal na nossa sociedade – mas na qual é particularmente saliente.
Perante este tipo de fenómenos, um instinto para moralizar ou culpabilizar a juventude surge-nos demasiado à mão, sobretudo porque nos permite elidir as nossas responsabilidades enquanto educadores e construtores da sociedade em que eles cresceram e que os formou. Mas, mais importante do que pregar a moral da boa cidadania, é urgente percebermos no que é que lhes temos estado a falhar.
Como diria Miles Davis, aproveitando o seu centenário, importa olhar para as notas que não estamos a tocar. Sobretudo, num tempo que lida tão mal com o silêncio ou o vazio. A verdade é que ninguém participa numa conversa para a qual não é interpelado e por isso é importante perceber o que estamos ou não a fazer para mitigar esta distância.
Sabendo que existe uma alteração tecnológica estrutural que provoca alterações radicais no modo como existimos em relação uns com os outros, deve dizer-se que nem toda a responsabilidade pode ser atribuída ao jornalismo, aos educadores ou aos pais. Há um vento contra o qual não conseguimos soprar, por muito que tentemos (nem que tivéssemos o fôlego de um trompetista como Miles Davis). Mas com certeza há notas que essa cacofonia mediática das redes sociais não está a saber tocar. Todos nós precisamos de nos sentir vistos, reconhecidos, e em particular quando ainda estamos a dar os primeiros passos na nossa vida. Todos precisamos de uma socialização real, com pessoas reais. As instituições de proximidade, como as associações ou os jornais locais, têm a potência de fornecer esses lugares, assim que consigam envolver-se com os membros mais jovens das suas comunidades.
Se eu soubesse como, se fosse fácil solucionar esse problema, não estaríamos perante ele. Mas é um problema que nos deve ocupar toda a atenção. Caso contrário, não estaremos a construir uma sociedade, mas um museu.
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Publicado no nº 1398 d’O Ilhavense,
de 1 de junho de 2026.
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