Não vamos adicioná-lo ao grupo? (do WhatsApp)

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Quando parecia que já tinha passado o casting para a adolescência, eis que me deparo com uma reminiscência dessa peça, que tanto me custou a fazer, e não foi só pelas borbulhas na cara. Para um miúdo de uma pequena cidade em crescimento, mas onde os outros miúdos e miúdas escasseavam à velocidade do envelhecimento demográfico, pertencer a um grupo podia tornar-se uma tarefa hercúlea, que incluía rituais, praxes e performances.

Porém, desde a tribo no bairro à turma na escola, os grupos permitiam uma certa normalidade e regularidade dos quotidianos e das sociabilidades juvenis, num tempo e num espaço desprovidos de hipercomunicações atualizadas ao segundo. Saber que à hora x e no lugar y, estaríamos todos juntos para “qualquer coisa”, era um conhecimento valioso e, sobretudo, um sentimento de segurança e pertença que, como ensina a psicologia social, melhoram, substancialmente, a autoestima e o autoconceito.

A democratização da comunicação digital e a sua velocidade e abrangência transformaram, muito rapidamente, estes outros hábitos para “estarmos juntos” (ou deviam tê-lo feito), e, agora, se quiserem, os e as adolescentes já não têm de sair de casa com medo de não encontrar ninguém à tal hora x e no tal lugar y. Estão sempre conectados, diz-se, e, quando já todos diabolizavam estes e estas millennials e as suas social networks, vemo-nos obrigados a comunicar como eles e elas, para falar com a avó e com a tia, com o colega e com o sócio, com os serviços e com o lazer.

O leitor e a leitora, que são mais atentos/as a estes temas, dirão que a reflexão tem, pelo menos, 10 anos de atraso. Eu próprio não diria menos. Mas o atraso traz vantagens acrescidas, li isto em algum lado, e nunca me fez tanto sentido como agora, diante do estado de pandemia, provocado por um novo vírus, que nos trancou em casa. Logo a nós, seres humanos habituados a globalizar!

Quem podia imaginar que, afinal, as social networks dos millennials podiam, diante da pandemia, tornarem-se as portas das nossas casas fechadas, as pernas dos nossos corpos trancados? Propositadamente, não refiro as janelas e as varandas que, como vimos recentemente, se tornaram, de novo, pontos de contacto entre pessoas, ou, adotando uma linguagem mais digital, lugares de chat.

Este novo mundo da comunicação social, que no princípio era só um verbo e agora se fez uma realidade incontornável, é desafiante para quem continua a entrar no chat, agora não com o medo de não estar ninguém (na hora x e no lugar y), mas, pelo contrário, com o medo de estar alguém ou algo a mais, que é como quem diz: a pessoa mal intencionada (ciberbully); a fake news manipuladora ou difamatória; o feed de conteúdos mal assimilados; a simplificação, ou “algoritmização”, da semântica e da sintaxe do texto e da imagem… Enfim, dos novos cânones para a gramática social adotada e criada neste mundo novo da comunicação digital e tecnológica, que tantas novidades trazem para a construção das nossas sociedades, culturas e identidades, de preferência sem vírus à solta.

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