25 de abril, sempre?

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Chegamos ao 25 de Abril de 2020 e eu não sei como o celebrar.

A pandemia não veio só trazer um problema novo, gigante, mas veio também pôr a nu muitos problemas velhos, ao ponto de não nos permitir mais evitar olhar para eles.

Encontram-se, neste momento, em Ílhavo, em Portugal, em todo o mundo, várias camadas da população ou absolutamente desprotegidas ou dependentes da assistência de instituições de solidariedade. Serão, porque são sempre, as principais vítimas da pandemia, tanto da viral como da económica.

Passámos os últimos vinte anos (pelo menos), à boleia do resto do mundo e da Europa, a construir um mundo muito protegido para poucos e muito desprotegido para muitos. A destruir o acesso ao trabalho com direitos, a criar novos modelos absolutamente precários de vínculo que mascaram práticas do século XIX com fogo de vista tecnológico, a adiar direitos constitucionais como o direito à habitação. Hoje, podemos ver o resultado disso quando percebemos que quem está a manter o mundo a funcionar são os mais pobres e os mais precários, os que não se podem dar ao privilégio que é cumprir o isolamento social, porque a nossa comida tem que vir de algum lado.

A resposta parece ser a de sempre: aplicar um penso rápido, sempre subordinado ao sempre sacrossanto rigor orçamental e endividar brutalmente pequenos e médios negócios, já de si endividados em nome de um liberalismo financeiro que colocou muitos a trabalhar para muito poucos (a banca, os fundos de investimento e os grandes grupos), espremendo em cada fase do nosso processo produtivo a capacidade de garantir a segurança e uma distribuição justa para uma forma realmente democrática.

Como resultado, teremos, se nada for feito, se nada for revisto, falências, desemprego e uma galopante crise social a juntar-se a uma crise de saúde pública. As pontas que seguram este frágil sistema social são, inevitavelmente, algumas relíquias de 1974, como o serviço nacional de saúde, a segurança social e a habitação social. Relíquias que passámos, nós e o resto do mundo, os últimos vinte anos a desvalorizar e a degradar.

Celebrar o 25 de Abril hoje é, de certa forma, como bater palmas a um Serviço Nacional de Saúde que passámos 20 anos a delapidar com subinvestimento e desvalorização de carreiras. Pois eu não sei se devíamos bater palmas ou esconder a cara com vergonha por cada pessoa que perde o emprego e fica sem dinheiro para sobreviver.

Dir-me-ão que há as liberdades. Há isso para celebrar. Há a possibilidade de escrever este texto sem grande desconforto – medindo, ainda assim, uma ou outra palavra. Mas então, se assim é, não as desbaratemos, não é? Não nos contentemos só com elogiá-las e usemo-las. Falemos do que vemos. E o que vemos? Que futuro espera aos “valores de Abril” se, tal como nas últimas crises que vivemos, daqui a um ano estivermos a dizer aos de sempre aos trabalhadores, aos pobres, aos reformados, para aguentar. Aos precários, que continuarão a ser precários. Aos jovens, que só poderão esperar ser precários.

Não adianta celebrar esse passado se isso começar e terminar num grande aplauso tão sonoro quanto vazio. Mas esse passado, ou o caminho que representa, é, e nunca foi tanto, a única coisa a que nos podemos agarrar. É preciso é que dele venha uma ideia, que venha a maré cheia de uma ideia para nos empurrar, como cantava o Zeca Afonso no Coro da Primavera.

E essa ideia, essa história, esse caminho que se há de fazer, eu ainda não sei qual é, mas intuo que não seja o que nos legou esta desigualdade toda e esta falta de democracia efectiva. E se o último mês e meio de emergência social não nos dá o futuro, dá-nos algumas pistas ou pelo menos algumas inspirações: a entrega dos profissionais de saúde a um sentido de missão, os exemplos de associativismo e comunidade que vemos um pouco por todo o lado e uma capacidade transversal de sentido de colectivo e realmente solidário.

Gritámos demasiadas vezes, como se se tratasse de um facto consumado, 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais. Esquecemos, pelo caminho, que o 25 de Abril, quando não é para todos e quando é só às vezes, escancara a porta ao que achamos que não voltaria. Mas não é, nunca foi, um facto consumado. É um labor em andamento e a celebrá-lo, só o podemos fazer de olhos postos no outro, com pensamento e com verdadeira solidariedade. 25 de Abril, sempre.

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