Realizou-se, nos dias 16 e 17 de maio, mais uma edição do “Bom Dia Cerâmica”, um evento europeu para a divulgação do património cultural e histórico ligado a este setor. Em Portugal, estavam previstas várias iniciativas por todo o país, desde cozeduras tradicionais em soenga – um processo de cozedura de barro preto -, exposições e visitas a ateliers, oficinas e empresas do ramo, que tiveram de ser canceladas devido à Covid-19. Em alternativa, foi organizada uma “grande operação de divulgação da cerâmica europeia” na internet, com diversas propostas para acompanhar através das redes sociais ao longo daquele fim de semana.

O “Bom Dia Cerâmica” nasceu em Itália e, em 2017, alargou-se a outros países, entre os quais Portugal, o segundo maior exportador de cerâmica a nível mundial, logo a seguir à China.

No ano passado, já no âmbito da recém-formada Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica, da qual é um dos fundadores, o Município de Ílhavo celebrou o “Bom Dia Cerâmica” com um programa de visitas guiadas e workshops que passaram pelo Museu da Vista Alegre, Museu Marítimo de Ílhavo, Quinta Pedagógica Inclusiva do CASCI e pela Oficina da Formiga, na rua da Coutada, um atelier de cerâmica da responsabilidade de Jorge Saraiva e da esposa, Milú, que se dedica a recuperar os formatos, motivos e cores da tradicional faiança portuguesa do final do século XIX e início do século XX, reinventando-a e dando-a a conhecer a novos públicos. 

Arte de minúcia que alcança grandes palcos

Desde cedo que a cerâmica faz parte da vida de Jorge. Os pais trabalhavam numa indústria do ramo, o seu percurso académico leva-o a licenciar-se em Cerâmica e Vidro, e na sua – chamemos-lhe assim – primeira vida profissional, trabalhou em várias fábricas e deu formação na área da cerâmica. Nessa época, a faiança artesanal não passava de um hobby, um escape para as horas vagas. Até que, em plena crise, há cerca de 10 anos, a vida troca-lhe as voltas e Jorge decide abraçar uma segunda vida profissional, dedicando-se a 100% à Oficina da Formiga. Com a esposa, Milú, que também acabou por se entregar de corpo e alma ao projeto, produz, decora e comercializa faiança utilitária feita à mão e decorada com motivos tradicionais. 

Este é um ofício que exige grande detalhe e paciência – o recorte das estampilhas, a precisão da cor, a firmeza nas pinceladas -, porém, Jorge fá-lo a uma velocidade impressionante. Os anos ajudaram-no a aperfeiçoar a sua técnica e sensibilidade, mas é o mesmo a admitir que, também ele, “nos primeiros tempos, borratava, manchava, falhava muito”. A própria esposa, que há anos o vê a pintar, confessa não ser capaz de lhe seguir as pisadas. “Até tenho alguma habilidade para trabalhos manuais, mas a tinta escorre, as estampilhas escapam e borrato tudo. Ele [Jorge] chega ali e faz-nos acreditar que é fácil”.

Não é. É um processo moroso e algo repetitivo, ainda que Jorge garanta que “todas as semanas experimento desenhos novos”. Além disso, refere Milú, “há clientes que nos desafiam a ir mais além”. É o caso das proprietárias de uma boutique, em França, que encomendaram uma linha de peças ao seu gosto (as francesas enviaram o esquema, desenho e cores pretendidas, Jorge fez as provas, houve reajustes e, uma vez aprovadas, as peças seguiram para a fase de produção) ou de uma artista plástica sueca que viu uma aguarela sua reproduzida em cerâmica por este ateliê ilhavense. 

Há restaurantes, casas de petiscos e tascas, principalmente, no norte do país, com louça da Formiga, prova que estas peças tradicionais se enquadram quer em ambientes mais rústicos e familiares, quer em cenários do maior requinte. Por falar em requinte, é na Oficina da Formiga que são produzidos e decorados todos os artigos de uma linha para casa de banho exclusiva do Six Senses Douro Valley, um luxuoso hotel e spa localizado nas encostas vinhateiras de Lamego. Foi, também, à Formiga que Jean François Piège, chef francês com duas estrelas Michelin (uma das mais importantes distinções do mundo da gastronomia), recorreu para equipar o seu mais recente restaurante, o L’Epi D’Or, a cinco minutos do Museu do Louvre, no coração da cidade de Paris. Naquele típico bistrô francês, que faz questão de preservar muitos dos elementos da decoração original dos anos de 1930, as peças utilitárias da Oficina da Formiga remetem para as origens portuguesas de Elodie Tavares-Piège, esposa do chef e responsável por este que já é o quinto restaurante do casal. “Numa situação normal, teríamos de pagar para poder ter os nossos artigos num restaurante daqueles. É das melhores publicidades que podíamos ter”, reconhece Milú. 

Hoje em dia, a Oficina da Formiga já exporta um pouco para todo o mundo. “Temos clientes no Canadá, Austrália, Estados Unidos, Holanda, Rússia, França, Espanha, Finlândia”, enumera Milú. “E está ali uma encomenda para seguir para a Suíça”, completa Jorge. O primeiro mercado internacional no qual entraram foi, contudo, o japonês.

Mas como é que uma oficina familiar na rua da Coutada chega ao Japão? “Devagarinho”, concede Jorge. Num certo dia de verão, a oficina recebe a visita de Yukimi Yano, uma japonesa apaixonada por Portugal, que estava à procura de produtos genuinamente portugueses para um roteiro que estava a compor. “Trazia o trabalho de casa todo preparado”, recorda Milú. A nipónica tinha navegado no site, ainda rudimentar, da Oficina da Formiga e, aquando da visita, já trazia uma lista com todos os artigos que queria comprar. Sensivelmente, um ano depois, o casal português troca alguns e-mails com Yukimi a propósito das histórias associadas às peças que a japonesa tinha adquirido. Passam mais uns meses e há nova encomenda. Finalmente, no natal desse ano, chega o livro– “Uma Viagem Retro a Portugal”, por Yukimi Yano – um guia ilustrado onde a autora apresenta pontos cuidadosamente selecionados em cidades e vilas de Portugal, boa comida e diversos testemunhos da arte popular lusa, e que conta com várias páginas dedicadas a Jorge, Milú e às peças tradicionais produzidas pela Oficina da Formiga.

Esta relação não termina aqui. Logo em janeiro seguinte, há nova encomenda a seguir para o Japão e, nesse verão, é Yukimi quem regressa a Ílhavo para levar mais material. “Desde aí, mais ou menos de dois em dois anos, segue uma grande encomenda para o Japão”, tanto que Jorge e Milú optaram por fazer um contrato de agente com Yukimi. “É o único país em que temos uma agente. Todas as vendas no mercado japonês passam por ela”. 

Porquê Oficina “da Formiga”?

O nome está relacionado com o passado profissional de Jorge, mas não há como ser alheio à metáfora da formiga, símbolo do trabalho incansável e da perseverança, quando pensamos neste casal. O pequeno inseto acaba por servir de inspiração para uma oficina de gente dedicada, que dá especial atenção aos pormenores e que afirma a sua identidade apostando num método lento e manual. 

Contudo, ao contrário da formiga, que vive e “trabalha” em colónia, uma vasta sociedade, complexa e organizada, este é um negócio familiar que, mesmo com o aumento do volume de trabalho, continua a envolver pouca gente. “Ter outra pessoa ou outras pessoas a trabalhar connosco ia implicar que essa pessoa se adaptasse a este ritmo de trabalho, o que seria muito difícil. E, verdade seja dita, não temos dimensão para sentir essa necessidade”, asseguram. 

Um novo espaço para novas valências

A Oficina da Formiga começou na marquise; mais tarde, mudou-se para o espaço, entretanto coberto, da antiga eira daquela casa gandaresa na Coutada; mais dia, menos dia, vai expandir-se para um espaçoso pavilhão que Jorge e Milú estão a construir adjacente à sua residência e no qual surgirá também uma nova loja, valência que, ao longo dos anos, tem funcionado num aconchegante e pitoresco compartimento do lar deste casal. Jorge e Milú precisam de separar aquilo que é casa, daquilo que é espaço de trabalho, bem como de ter um espaço amplo, com bancadas para enchimento de moldes, zona de embalagem, cozinha e mesas de convívio, que esteja “preparado para receber workshops e residências artísticas” e, acima de tudo, “que promova a confraternização entre os visitantes, famílias ou grupos de amigos”, ressalva Milú. A ideia era ter tudo pronto no início do verão, mas “a pandemia tramou-nos, como tramou tanta gente”, lamentam, garantindo, todavia, a inauguração para breve. 

Quanto ao espaço onde, por ora, funciona a loja, vai ser “remodelado e transformado num pequeno museu”. Ao longo dos anos, o casal foi colecionando peças valiosas, umas muito antigas, outras que se destacam pela sua raridade, uma parte comprada em feiras, mostras ou pela internet e outras oferecidas por amigos ou clientes. “Ainda esta semana tivemos a visita de um turco que nos trouxe uma peça cerâmica típica da Turquia. Um vizinho nosso viajou para o Irão no ano passado e trouxe-nos azulejos iranianos”, conta Jorge. 

Já não falta muito para este espólio sair dos caixotes onde tem estado armazenado. Uma coleção com grande valor histórico e patrimonial, mas também com um elevado valor sentimental para Jorge e Milú, uma vez que, de certa forma, em cada peça, ajuda a reviver memórias e a narrar alguns dos mais importantes episódios da vida da sua família.

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