Tem sido um lugar comum em várias rodas de conversa um efeito colateral da entrada triunfante da Inteligência Artificial Generativa (vulgo, ChatGPT) nas nossas vidas. Tornou-se um recurso para “fazer conversa” – como comentar o quão quentes estão a ficar os verões ou o quão difícil está arranjar uma casa a preços suportáveis – a troca de experiências e formas de aplicar o Gemini, o Claude ou o ChatGPT em tarefas diárias: agendar as férias, organizar a agenda ou redigir e-mails. Mas um outro comentário que ocasionalmente surge é: “já reparaste em como agora toda a gente sabe escrever tão bem?”

É um efeito notório, omnipresente, em todas as áreas da nossa vida onde ainda é a palavra escrita quem reina. Em particular, nas redes sociais, verifica-se uma articulação notável em publicações de perfis que outrora pugnavam pelo caos nas vírgulas ou na colocação dos hífens, e que hoje redigem textões absolutamente enxutos. Verifica-se também nos discursos, como já foi notado por alguns analistas, a estruturação impecável de certos discursos onde se encontra recorrentemente o uso de estratégias discursivas já clássicas em frases originadas pela máquina: “não é sobre x, é sobre y”, “a não é apenas b, é c” ou o já clássico “e isto muda tudo”.

Eu próprio passarei este editorial por uma dessas máquinas, para que me sejam revistas as gralhas ou formulações menos conseguidas. E estou longe de pretender moralizar estas estratégias. Mas a questão que me levanta é a seguinte: que lugar terá o futuro para essa faísca criativa que é a gralha?

Talvez a questão exceda a gralha e chegue mesmo à chamada “má escrita”, a escrita desenfreada de quem não conhece as regras e, no seu escrever-como-sabe, inventa formas ricas de expressão (pensemos em António Aleixo, na poesia portuguesa, ou em Carolina Maria de Jesus, na literatura brasileira, e em como a sua pouca instrução produziu textos tão incontornáveis, ou na riqueza linguística, oriunda desse mal-falar popular, com que autores como Aquilino Ribeiro ou Guimarães Rosa erigiram os seus monumentos literários). E, por outro lado, o que estará isto a fazer até às nossas comunicações pessoais? Quantas pessoas já se terão comovido com dedicatórias românticas escritas pela IA? E quantas terão sentido a necessidade de as produzir através desse recurso, por sentirem que a sua expressão é insuficiente?

Talvez tudo isto sejam inquietações reacionárias, exageradas, de quem talvez tenha demasiado apreço por aquilo que o progresso procura eliminar: a falha. Provavelmente o erro irá sempre encontrar lugares por onde despontar, como sempre acontece. Mas não devemos deixar de cuidar desse fértil desvio humano, de onde germina toda a descoberta, nem que para isso seja necessário plantar, forçosamente, no final de um texto como este, uma grahla.

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Publicado no nº 1403 d’O Ilhavense,
de 15 de agosto de 2026.
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