A vida não está fácil. O lar tornado escritório, escola, cantina, barbeiro, cabeleireiro, vai começando a rebentar pelas costuras, ou pelos tricôs, valiosos passatempos que, apesar de tudo, vão emprestando alguma harmonia à tessitura destes dias. Temos de nos ocupar, quanto mais não seja para não sermos ocupados por inquilinos mal pagantes como são a ansiedade ou o desânimo.
É o que vou procurando fazer, numa destas tardes que, de tão semelhantes, se entrecruzam no nosso registo memorial, quando uma sucessão de notas sopradas através de um instrumento que não consigo definir, mas que talvez seja algo como um trombone, invade o meu espaço.
De início, perturba–me. São notas soltas, de alguém que está a aquecer ou a aprender. Em pouco tempo, tornam-se partes de uma escala, percorridas incessantemente. Aqui, já perdi a concentração do que estava a fazer, e toda a minha atenção se fixa nesta pessoa, de cuja existência apenas sei um par de pulmões e uma intrépida vontade de os usar.
Continuo a ouvir e, gradualmente, o incómodo vai sendo tomado pela admiração. Que invejável tenacidade. No meu caso, ao fim de um ou dois exercícios, já teria sucumbido ao doce canto da preguiça. Mas o autor destes sopros prossegue, repetindo, repetindo, escala acima, escala abaixo, até satisfazer o seu exigente critério.
Então, seguimos para o exercício seguinte. Só me apercebo ao fim de uma ou duas tentativas mas noto que se começa já a desenhar algo, agora. Uma melodia. Vai-se construindo, paulatinamente, esse encadeamento de notas que sei de memória. A primeira com a segunda com a terceira, já me começam a levar a algum lugar, mas a quarta sai ao lado e perco-a. Segue-se nova incursão e conquistamos a quarta, a quinta, e depois as seguintes.
Vai entretanto ganhando corpo a canção que é ainda, para mim, a totalidade desta pessoa e começa, portanto, ela também a ganhar corpo, como o momento que partilhamos sem que o saiba.
Até que chego lá. Começo a trautear, para mim, a canção. Uma e outra vez, percorro a melodia que vai adquirindo uma palavra e depois outra, até chegar, finalmente, à conclusão: yes I may dream a million dreams but how can they come true, if there will never ever be another you*.
É precisamente “There will never be another you”, que me habituei a ouvir na voz do Chet Baker, sumida e frágil e terna, como esta breve ligação de estranhos, feita de um ar que vibra de um modo ligeiramente diferente do dos outros dias.
Inevitavelmente, o ensaio termina. Separamo-nos sem nos despedirmos. Coloco os auscultadores na cabeça e procuro pelo Chet Baker. Vou parar a Let’s Get Lost, de boa memória. Calço as botas e vou dar uma volta pela Costa Nova, ver como está o mar. O passeio é curto. Temos de nos ocupar de alguma forma.

  • «sim, haverá um milhão de sonhos, mas como se poderão tornar realidade, se nunca mais irá existir um outro “tu”» (tradução livre e atabalhoada do autor

Uma crónica de David Calão

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