Estamos a chegar ao fim da época em que se efetuam a maioria das festas religiosas. Talvez este escrito tivesse tido mais sentido no mês de maio. Rara será a povoação, que tenha um lugar de culto, onde não se realize, com maior ou menor esplendor, uma celebração em honra de Deus, de Nossa Senhora ou dos Santos.
Em todos os tempos e lugares, o homem tem sentido a necessidade de quebrar o ritmo de cada dia, de extravasar e saborear a festa que lhe mora na alma, de exprimir a liberdade do peso do quotidiano. A festa desenvolve o sentido de gratidão, da pertença a uma comunidade; e é uma ocasião propícia para afirmar a vida e os seus valores. Muito frequentemente o homem atribui-lhe um significado religioso fundamentado na alegria, na graça e no dom do Espírito. As festas fazem parte, por isso, de todas as religiões, ocupam todos os livros sagrados, e estão onde estão os homens.
A festa faz parte integrante da vida do homem. E as festas religiosas estão profundamente enraizadas na vivência dos cristãos, que celebram com particular intensidade e devoção aos seus padroeiros. E foram, ao longo dos tempos, o principal motivo e encontro e reunião das famílias e das pessoas da comunidade.
Mesmo nas paróquias mais urbanizadas, nos bairros e lugares que o crescimento demográfico fez surgir, a profunda devoção dos crentes levou à edificação de templos dedicados principalmente a Nossa Senhora, sob multiplicas invocações, a Cristo Ressuscitado e aos Santos, constituindo autênticas comunidades locais coesas à volta dos seus patronos.
E esta ligação é tão forte que, mesmo quando as pessoas se afastam para longes terras, por motivos de emigração ou deslocação temporária, ficam de tal modo presas ao seu lugar e ao seu padroeiro que, no dia da sua festa anual, aí estão de volta, vindos até de muitos países de longe, onde estão emigrados. E, por causa dos emigrantes até se alteraram os dias da celebração da festa em honra deste ou daquele santo. Por exemplo, na Paróquia de Ílhavo: na Légua, festa de Nossa Senhora da Luz deveria ser celebrada a 2 de fevereiro, dia da apresentação do Senhor, mas também da Senhora das Candeias ou Candelária ou Senhora da Luz. Na Coutada, a festa em honra de Santo António que tem um dia próprio (13 de junho), mas entre nós, é celebrada no 3º domingo de julho. Na Gafanha d’Aquém, temos a festa de São João da Ponte (São João Batista) celebrada no primeiro domingo de agosto, quando o dia litúrgico é a 24 de junho. A festa de Nossa Senhora das Dores e do Pranto, em Cimo de Vila, é celebrada num dia de alegria (15 de agosto) quando devia ser a 15 de setembro, dia litúrgico de Nossa Senhora das Dores… e assim por diante. Mas estas alterações não trazem nenhum mal ao mundo e até são compreensivas.
A minha intenção não é mexer em datas, mas dar sentido e valorizar o que é bom à volta das festas.
E aproveito para citar S. Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: alegrai-vos» (Fl 4, 4); e a do próprio Senhor: «Dou-vos a minha alegria… A vossa tristeza há-de transformar-se em alegria » (Jo 15,11; 16, 20).
Dentro deste espírito, os cristãos celebram também as festas Litúrgicas aquando da celebração dos sacramentos na sua relação com os ciclos da vida: batismo, primeira comunhão, crisma, matrimónio, ordem; e dos momentos em que a mesma vida, ameaçada pela doença e pela morte, é acompanhada pela unção dos enfermos e pelas celebrações exequiais, tempos e experiências particulares da vida do homem.

Vamos à questão inicial: Festas Religiosas – Sim ou Não? Claro que SIM.

Padre António Cruz – Prior de Ílhavo

Publicado no jornal O Ilhavense de N.º1310 de 1 de outubro de 2022

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