Na última edição d’O Ilhavense, 15 de agosto, o diretor do jornal, e também meu amigo, David Calão, assina um Editorial extremamente interessante que intitulou de “A Gralha”. Ao lê-lo, senti assim uma espécie de picadela a motivar o comentário. Pois é, David! O tema IA (Inteligência Artificial), como refere, coloca-se no centro da atualidade, suscitando diversas abordagens sobre vantagens e desvantagens, benefícios e malefícios. Eu própria já recorri à IA para obter informações ou até embrenhar-me em discussões académicas de que, aliás, sei antecipadamente os resultados. Foi só para testar… Nestas, até consegui levar-lhe a melhor, uma vez que, quando há necessidade de argumentação, a “sabedoria maquinizada” não se consegue sustentar de forma criativa. Recorre ao óbvio, ao conhecido, como está claro, embora de forma muito mais rápida. Falta-lhe, conforme o Papa Francisco afirmou, “discernimento, espiritualidade, afeto e a compreensão profunda da vida”. Isto é, embora seja uma ferramenta de processamento de dados produzida pela sabedoria humana, falta-lhe a individualidade do homem, ele próprio. Também já me senti um pouco arreliada, quando, na altura do meu aniversário, recebi mensagens de felicitações muito perfeitinhas, muito sensibilizadas, de pessoas de quem conheço as características discursivas, e que não têm qualquer semelhança com o que me enviaram. É assim uma espécie de fast food a fingir de prato assinado por um chefe com estrelas Michelin. E a cópia é de tal forma ofuscada ou disfarçada, que até já há países como, por exemplo a Dinamarca, onde se começam a exigir provas de exame orais, para que os alunos defendam a autenticidade daquilo que escreveram. Em Portugal, parece que ainda estamos na era da inocência… ou tão só do facilitismo.

Mas, na verdade, ainda não tinha pensado no assunto que aborda no seu Editorial, isto é, a necessidade da “gralha”! A gralha enquanto característica humana, a única que pode provar a autenticidade humana de um qualquer “escrito”. Eu, que toda a minha vida persegui o erro, a gralha, tentando evitá-lo ou corrigi-lo, até me sinto obrigada a concordar consigo. E, faço jus à célebre frase do filósofo romano Séneca, “errare humanum est”, ainda que a forma como a frase se conclui “perseverare autem diabolicum” (persistir no erro é diabólico) também inclua uma fundamental característica do humano atual… Porém, não partilho da dúvida que expõe na frase, “que lugar terá o futuro para essa faísca criativa que é a gralha?” Sabe, tão bem como eu, que, a partir do momento em que partilha, publicando, essa sua análise sobre a “gralha”, enquanto peça fundamental para a autenticidade criativa humanizada de um texto, a IA irá recolher essa sua análise, esses seus dados, para suprimir o referido benéfico efeito do “erro”. O David, com este seu Editorial, está a retirar todas as vantagens que o “erro” poderia ter… Publicou… estragou tudo, porque à IA não escapa nada!

E desta forma, em jeito de brincadeira, quero dizer-lhe muito a sério que, sem querer ser um Velho do Restelo, penso deduzir do seu Editorial, a preocupação pelo que irá acontecer ao mundo dos humanos nesta viagem insaciável de se ultrapassarem a si próprios na ânsia da procura do facilitismo a que, vaidosamente, chamam “progresso”. A falta do discernimento crítico e criativo conduzirá, sem dúvida, a um mundo novo, mas a que preço e com que perdas, sobretudo de éticas?

Termino, esclarecendo-o que este texto não foi gerado pela IA, nem sequer revisto. Talvez por isso… será que vale a pena lê-lo?… Espero que não tenha gralhas!

Publicado n’O Ilhavense, nº 1404,
1 de setembro de 2026.
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