É comum, quando se fala em ficção, em particular com dimensão espectacular como o teatro ou o cinema, falar-se em “suspensão da descrença” – um mecanismo através do qual, por momentos, acreditamos mesmo que determinado ator é Júlio César ou determinada nave espacial se encontra mesmo na iminência de abduzir um agricultor norte-americano. Esta suspensão, que nos torna crédulos a algo em que nunca acreditaríamos noutro contexto, é o que faz com que nos consigamos comover com certas histórias, que nunca existiram de personagens sem correspondência com pessoas reais.

Ao assistir às imagens de alguns turistas regressados do Dubai, que encontraram um certo divertimento na observação do cenário bélico, questiono-me se a nossa vida não terá sido tomada agora por uma espécie de “suspensão da crença” – ou seja, em vez de vermos tudo como se fosse real, pelo contrário, olhamos para tudo como se fosse irreal, como se estivesse atrás de um vidro, a um pequeno gesto de poder ser desligado ou trocado por outra visão.

Desta suspensão da crença, o negacionismo, quer seja o da pandemia, das alterações climáticas ou do genocídio em Gaza, é apenas o sintoma mais severo. Mas o modo como, após um evento de extrema violência, somos capazes de o integrar tão rapidamente no nosso dia-a-dia, no nosso novo normal, desrealiza os acontecimentos. O que aconteceu há poucas semanas na Venezuela é hoje já assunto arrumado, e a escalada da guerra no Irão, com as consequências nefastas que irá trazer para todos nós, tornar-se-á parte do nosso dia-a-dia, como entretanto a Ucrânia ou Gaza se tornaram. Sem escândalo, sem sobressalto.

A verdade é que, para nossa felicidade, vivemos relativamente escudados da violência que emerge no mundo, diariamente, ou pelo menos daquela que se manifesta de um modo mais severo. E é difícil, perante as visões e os factos que nos chegam de vários pontos do mundo, aceitar a sua realidade, e o que ela nos obriga a rever acerca daquilo que acreditamos serem as nossas prioridades e o nosso lugar no mundo. Dedicamo-nos, por isso, a olhar para elas como para os milhões de vídeos, gerados ou não por inteligência artificial, que nos passam todos os dias pelos olhos: como um divertimento, independentemente da sua veracidade. Já não suspendemos a descrença para entrar na ficção, suspendemos a crença para sobreviver à realidade.

A verdade torna-se, assim, um produto difícil de vender. E, no entanto, o mais necessário de todos.

Publicado no nº 1393 d’O Ilhavense, de 15 de março de 2026.
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