Abril é esperança. A primavera e as esperanças renovadas.

Os dias longos e as esperanças renovadas.

O dia inicial inteiro e limpo, com cravos na lapela. Cravos grafitados nas paredes e pendurados em varandas. Cravos de papel, tricot ou frescos como alfaces. Alfaces vermelhas.

O dia em que, por feliz coincidência (ninguém me tira da cabeça que Salgueiro Maia gostava de pepperoni, zucchini e funghi), o dia em que, por feliz coincidência ou graça divina, partilhamos com os irmãos italianos a libertação do fascismo — nunca mais.

Esperanças Renovadas.

E entra maio. O mítico Dia do Trabalhador. O dia em que o direito — e o certo — é não trabalhar.

No dia 1, a tradição levava-nos à mata.

E ali passávamos o dia. Toalhas e mantas no chão. Camas de rede a balouçar. Bolas, cartas, ringues. E o cheiro a liberdade, os pinheiros quentes ao sol, a areia coberta de agulhas e pinhas. Corríamos, brincávamos, ríamos muito. De manhã até ao sol se pôr. Nenhum amigo faltava. Não havia um metro quadrado livre para novos arraiais. A Colónia Agrícola estava ocupada, sitiada — e era uma festa.

Talvez se falasse de direitos laborais. Talvez não. Ou talvez existam formas insondáveis de lá chegar. Enquanto corria entre as árvores, não dei por nada.

Até que Ayrton Senna morreu.

E não era possível. Estávamos ali, na maior alegria, e Ayrton Senna morreu.

O meu pai saiu do piquenique e foi ao carro ouvir o rádio. Eu fui atrás. De certeza que se tinham enganado.

Não me lembro de ter voltado em família à Colónia Agrícola.

Já adolescente, acampávamos com os amigos. O Dia do Trabalhador era sagrado. Éramos estudantes, mas tínhamos muita empatia por todas as formas de luta: manifestações, greves, ameaças de bomba, reivindicações em geral. Tudo o que interrompia o regular funcionamento das aulas merecia o nosso empenho e consideração.

Por isso acampávamos de véspera, para reivindicarmos mais tempo.

Numa dessas noites, o Illiabum jogou com o Porto — talvez playoff da final do campeonato. Não podíamos faltar. E lá fomos, a pé, da mata ao pavilhão. Todas as portas estavam abertas e a multidão, de amarelo e púrpura, ocupava tudo. E ganhámos.

A festa continuou na mata até de manhã.

A vida continuou e a tradição acabou.

A Colónia Agrícola não é colónia, nem é agrícola.

No outro dia passei por lá e não vão acreditar, nem sei como contar — a mata desapareceu. Morreu.

Não queria contar assim. Tento encontrar as palavras mas não há as certas para este fim. Talvez seja melhor sabê-lo pelas páginas do jornal, do que pela dura realidade local.

Primeiro fez-se uma fábrica. Toda a gente ficou contente. Depois fizeram-se duas fábricas e toda a gente ficou contente. Depois abriram-se estradas muito boas e muito largas para se chegar às fábricas. E esta semana soube-se que a Ria Stone vai investir cerca de 40 milhões de euros na construção de uma fábrica com 27.000m2. É o progresso.

Já não há piqueniques na mata da Colónia Agrícola. Não há sombras. Não há arvores. Não morreram de pé. E ninguém as levantou do chão.

Mas o dia do trabalhador continua. “Deixem os trabalhadores em paz”.

–//–

Publicado no nº 1396 d’O Ilhavense,
de 1 de maio de 2026.
Assine o jornal aqui.