Uma coisa que verificamos ao ler edições mais antigas d’O Ilhavense é que este jornal local sempre teve uma presença surpreendente de notícias nacionais e internacionais, para além das locais. Talvez por idiossincrasia das redações de então ou pela vocação marítima e, por isso, aberta e habituada ao trânsito quotidiano de informação. Haverá quem esteja mais qualificado para avaliar estas razões, e creio que este património histórico que temos em mãos já merecia um estudo aprofundado e sério. Apesar de tudo, acredito que uma certa característica cosmopolita deste território não pode ser alheia a este fenómeno.

A verdade é que, quer pela população cada vez mais internacional que compõe a nossa comunidade – como a notícia acerca da importância dos investimentos de brasileiros na construção no nosso município ilustra –, quer pela forte importância da nossa diáspora – que continua a representar uma parte significativa dos assinantes deste jornal –, Ílhavo é um local onde a geografia não pode ser limitada pelas suas fronteiras físicas. Existe uma geografia que excede o seu espaço e que se prende com as suas ligações.

Quando observamos as imagens de destruição provocadas pelo terramoto na Venezuela, não conseguimos deixar de pensar em quantos dos nossos conterrâneos estarão a ser afetados, seja diretamente, seja através da família e dos amigos que lá estarão a sofrer uma calamidade inimaginável.

Temo-nos vindo a habituar a observar a realidade internacional cada vez mais atentamente, sobretudo pelo modo como a sua dimensão política se tem revelado uma espécie de reality show cada vez mais grotesco e imprevisível. Mas também porque cada vez mais somos lembrados de como o mundo é pequeno e de como tudo se toca e nos toca. De como um pequeno estreito na costa do Irão afeta as despesas do nosso mês. Isto, se para alguma coisa servir, deverá permitir-nos ganhar consciência de que as dimensões daquilo que nos é próximo são muito variáveis.

A solidariedade impõe-se, por isso, sempre que vidas humanas estiverem em causa. E a atenção, como sempre, não sendo perfeita nem capaz de atingir todos os problemas que a merecem, não pode ignorar algo que toca a tantos de nós.

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Publicado no nº 1400 d’O Ilhavense,
de 1 de julho de 2026.
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