O Brasil em duas voltas

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São inquestionáveis os resultados positivos da governação de Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores (PT), em particular no seu primeiro mandato, depois de ter tentado chegar ao Palácio do Planalto por três vezes, e ter por três vezes fracassado. No decurso do seu primeiro mandato, a implementação de políticas reconhecidas pela ONU como marcos históricos na retirada da pobreza de milhões de brasileiros, assinalará sem dúvida a passagem pelo poder deste antigo metalúrgico e sindicalista, que levou ao topo do poder federal o seu PT. Mas como sempre em política, a administração do país durante os seus mandatos e aquilo em que Dilma o seguiu, não ficaram isentos de erros. A vitória de Dilma contra Aécio Neves, por fraca margem em 2014, poderá ter sido o epílogo do crescente extremar de posições que levaram Bolsonaro e Haddad à segunda volta.

Comecemos pelo óbvio. Se Bolsonaro for eleito – como tudo indica, não vale a pena efabular – o país, o continente americano e o mundo ficarão bem piores. Este saudosista da ditadura militar terá um cheque em branco passado pelo povo brasileiro para colocar em prática um programa de governo que tenderá a autodestruir o país. As recentes sondagens aumentam a percentagem dos seus hipotéticos eleitores, chegando aos 59%, enquanto o candidato do PT chega aos 41%, depois de ter granjeado 29% na primeira volta. O candidato do Partido Social Liberal (PSL) teve, naquele que os brasileiros chamam de primeiro turno, 46%. Esta evolução é manifestamente negativa, pois dá a entender que Haddad não cresce, enquanto Bolsonaro ainda consegue votos de eleitores que não optaram por si na primeira volta. E considerando que o voto é obrigatório entre os 18 e os 70 anos, o papel dos indecisos será fundamental.

Entretanto, Haddad e o PT alteram a forma de comunicação e a afirmação do seu candidato. Se, na primeira volta, a enfâse maior foi dada à ligação entre Lula e o antigo ministro da Educação, essa quase osmose desaparece, desaparecendo, com ela, a mítica figura de Lula, numa tentativa de ganhar simpatizantes e eleitores ao centro, nomeadamente os descontentes do PSDB, que, sendo um partido de poder no Brasil, não chegou, sequer, aos 5%. Já Bolsonaro, depois de comportamentos e tiradas a raiar a ação dos regimes totalitários, parece agora querer segurar o resultado através de uma moderação calculada, cínica e perigosa, que tenderá a levar ao engano os que, por antipetismo, nele decidam depositar o voto. Dizem os estudos de opinião que Bolsonaro ganhará porque o PT perdeu. A rejeição do partido de Lula é grande.

E o que terá levado a esta tão grande rejeição? O que levará os brasileiros a eleger alguém tão contrário às liberdades civis? Por um lado, e correndo a corrupção todo o sistema partidário, estando presos responsáveis de todos os partidos, o PT deveria ter dado outro sinal. Eleger como primeira medida a libertação de Lula não foi o sinal que a maioria dos brasileiros estariam à espera. Se se tivesse distanciado do sistema corrupto, sem olhar a nomes, a história seria diferente. Por outro lado, a ascensão de milhões de brasileiros à classe média, levou-os, igualmente, a mudar o seu sentido de voto, não se revendo mais no PT, o partido que os alavancou socialmente. Por fim, as classes trabalhadoras tenderão a achar que a violência e a criminalidade generalizada precisam de uma outra resposta. Poderão até precisar. O problema é que a resposta não distingue ninguém. E os brasileiros deveriam lembrar-se disso.

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