Debaixo de água

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Foto: DR

As ondas desabam, umas após as seguintes, enquanto sorvo um gelado sentado na areia. Felizes, os corpos gozam a derrocada, por entre um ou outro grito mais entusiasmado com a temperatura. Ao meu lado, laboriosos do ócio constroem um pequeno muro que, esperam, deterá a subida da maré. Talvez seja o quão holandeses conseguimos ser a esta hora, com este calor.

Sobre nós – ou entre nós – percorre um vento quente que vem das nossas costas – de terra, portanto – e faz a bandeira azul e a amarela apontarem para o sentido oeste. Um ou dois insectos aparecem-nos estranhos, mas eventualmente um companheiro de veraneio mais esclarecido ilumina-nos dos fogos que andam por aí, pelo interior, que explicam também um certo cheiro a fumo que não vem dos cigarros que nos acompanham.

Lamentamos todos, cada um com o seu gelado.

Um jornal traz-me novidades à Costa Nova, onde as coisas aparecem sempre muito iguais e muito eternas. Leio uma ou duas notícias e pouso, como quem abre a janela do quarto, olha, e volta ao sono. Pego antes no livro que levei, sempre me confronta com informação menos urgente. Mas também o pouso. Atrás deste para-vento nada me perturba.

Olho para o mar onde crianças se divertem e não vêm a fugir de lugar nenhum. Nenhum dos corpos em processo de escurecimento se indigna com a chegada de outros corpos escuros do mar. É escurecimento que vem da boa-vida e não da nascença num berço mais desfavorável.

A água continua a subir, dizia o jornal que pousei. “A água está a subir!”, avisam-me. Tão distraído, nem tinha reparado. Levantei-me com rapidez para tentar salvar as minhas coisas, mas não me livrei de ficar com a roupa encharcada. Devíamos ter prestado mais atenção aos jornais.

Abro a mochila, onde trago fruta de uma crónica anterior, de onde tiro um protector solar. Aplico o espesso produto com que combato o buraco do ozono e penso em como não deixa de ser um pouco como combater a subida do mar com murinhos de areia. O certo é que eu me molhei e eles não, que estavam atentos. E já estou a ficar vermelho.

É difícil tirar férias. Isto anda tudo ligado, e nós também. Coloco os óculos de sol e no mar vejo um homem com alguma idade que nada um mar agitado com o à vontade de um Arquimedes entre patos de borracha, enquanto os demais se debatem contra as forças da rebentação. Talvez só atinjamos a verdadeira sabedoria quando soubermos nadar assim, tranquilamente dentro de um mar revolto (obedecendo às forças que pretendemos dominar, diria Bacon).

Tiro, portanto, os óculos de sol. Pouso a mochila, o livro e o jornal em lugar seguro. Preciso de férias. Corro em direcção ao mar. Salto uma onda, salto outra, tropeço na terceira e mergulho de cabeça – adeus à praia, sem saudades. Sobre mim apenas silêncio e escuridão. Finalmente, debaixo de água.

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