“No meu tempo é que era”

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Foto: Héctor Martínez

Maria José Santana
Diretora d’O Ilhavense

Damos, assim, por concluído o mês em que mais portugueses vão a banhos, concentrando todas as atenções nas vilas e cidades à beira-mar plantadas. Ílhavo, através das suas praias da Costa Nova e da Barra, continua a ser dos locais de veraneio mais concorridos da zona centro do país, com todas as vantagens e desvantagens que daí advêm. As primeiras são sobejamente conhecidas de todos nós. As segundas voltaram a colocar o nome do município nas páginas de um jornal nacional e a suscitar muitas críticas por parte dos condutores.

Sem querer entrar na discussão em torno da eficácia do novo nó de acesso às praias, há algo que me habilito a sugerir: seria interessante promover um debate, sério e participado (por munícipes, associações, autoridades), em torno da mobilidade nas praias do município no pico do verão. E o jornal “O Ilhavense” até poderia ser mediador de uma eventual reflexão pública em torno de um problema que já não é de hoje, mas que tem vindo a agudizar-se de ano para ano.

A culpa? Basta olhar para as garagens das nossas casas para percebermos o principal foco do problema. Faça as contas: quantos carros tinha aí em casa há 10, 15 ou 20 anos, e quantos tem hoje. As contas têm sido feitas sempre a somar e, por mais que se tente encontrar bodes expiatórios, há uma realidade inquestionável: nos dias de hoje, há muito mais automóveis a circular nas estradas. E as nossas praias são também vítimas disso. Talvez ainda mais do que outros recantos à beira-mar plantados em virtude de serem servidas por uma autoestrada (a A25 desemboca nas nossas praias).

Os carros aumentaram, mas o espaço mantém-se o mesmo, provocando impactos na fluidez do trânsito e no estacionamento. Talvez fosse altura de começarmos a pensar em medidas que desincentivem o uso do automóvel no acesso às praias. Sei de uma família que, num dia deste verão, chegou a usar três carros para se deslocar para a praia. Primeiro, vieram os pais, depois, cada um dos filhos. E porque haveriam eles de privar-se de ir e vir à hora que bem lhes apetecesse? Ao contrário do que acontece em grande parte das estâncias balneares mais procuradas, o estacionamento na Barra e na Costa Nova até é totalmente gratuito – nem na primeira linha, junto à praia, se cobra o estacionamento. E depois ainda há quem se habilite a estacionar em cima dos passeios, muitas vezes sem sofrer quaisquer consequências.

Sinto-me perfeitamente à vontade para falar sobre esta questão, pois este até foi dos verões em que mais usei a bicicleta nas minhas deslocações de fim-de-semana. E foi numa dessas viagens entre a Costa Nova e a Gafanha de Aquém, para os habituais almoços de domingo em família, que fiquei com a sensação de que há hoje menos gente a usar a bicicletapara se deslocar para as praias. Eu que até sou dessas pessoas que detesta a expressão “no meu tempo é que era”, neste caso, sirvo-me dela. No meu tempo de juventude – não tão longínquo assim -, em que nem ciclovias havia, as idas à praia eram feitas a pedalar.

Talvez esteja na altura de pensarmos como é que podemos (re)incentivar os cidadãos a usar mais a bicicleta nas suas deslocações até à Barra e à Costa Nova – eu, por exemplo, sinto a falta de parques de estacionamento. De fazermos bem as contas e refletirmos se é com bilhetes a 2,5 euros (Costa Nova / Aveiro) que conseguimos convencer as pessoas a optarem pelo autocarro. De voltarmos a trazer à tona aquela ideia, já ouvida por aí, de promover travessias de barco até à Barra ou à Costa Nova – criando zonas de estacionamento do outro lado do Canal de Mira.

Inicie-se o debate, pois as nossas praias – e quem lá vive ou simplesmente as frequente – merecem melhor.

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