E se fôssemos aos cricos?

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“E se fôssemos aos cricos?” Quando era mais jovem, raro era o dia em que não ouvia esta expressão. A localização da casa dos meus pais a isso ajudava, já que as traseiras davam exatamente para o Caminho do Praião, na Gafanha da Encarnação, com o Canal de Mira logo ali atrás.

Acompanhado sempre por alguns amigos, lá seguíamos de balde na mão com a maré baixa como destino. Habitualmente, nunca trazíamos apenas cricos, e só assim os baldes vinham a transbordar. De cricos, é verdade, mas também de navalhas, alguns caranguejos, uma ou outra amêijoa e, por vezes, quando corria bem, uma ou outra ostra que decidia ganhar vida própria e rolar para fora dos viveiros que as guardavam.

Naquela altura, havia bem menos ocupação da ria pelos ostreiros, o que se compreende. O facto de as nossas ostras serem conhecidas em todo o mundo, leva a que mais pessoas se dediquem a esta atividade. As áreas concessionadas têm vindo a crescer, à medida que crescem os mercados interessados na sua exportação, em particular os franceses, e, em muito menor medida, os espanhóis. Algumas ficarão em território nacional.

Segundo dados da Direção Geral dos Recursos Marinhos, serão cerca de duzentas toneladas por ano que saem da nossa ria.

Estaremos a ir demasiado longe na ocupação da ria com os viveiros de ostras? Não sei. A linha que define a sobrecarga de utilização da ria e um aproveitamento económico eficiente sem prejudicar outras áreas de atividade como a navegação e a apanha lúdica, por um lado, e o benefício (económico) que nos traz aquela utilização dos viveiros de ostras, por outro lado, é bastante ténue.

Uma coisa parece certa: seria mais difícil calcorrear a ria com a maré baixa por esta altura, do que quando o fazia com o Nélson e o João, irmãos e vizinhos, e ainda o Joel, o Ricardo e mais alguns de que não me lembro agora. O maior aborrecimento era mesmo quando regressava a casa e tinha a senhora Maria Dolorosa à espera.

O problema é que o acesso à ria era tão simples, que saíamos sem dizer nada a ninguém. Levar o balde cheio – e descontando alguma escoriação quando já se fugia à subida da maré – podia funcionar como importante atenuante. Por vezes sim, outras vezes o castigo não parecia ter fim.

Hoje, depois de tantos anos, compreendo-os bem. Eu e os amigos que citei – que já não encontro há anos – podíamos, em muitas circunstâncias, ter lá ficado.

Lembro-me, em particular, de uma situação. O balde, cheio, já flutuava e a água já chegava aos nossos ombros. Ficámos presos com água por todo o lado, e apenas por mera sorte conseguimos ir andando até chegarmos a terra firme, com o balde do nosso lado. Depois do susto, o castigo foi o prémio.

Quem ainda foi aos cricos foi o Ricardo Marujo. Este verão encontrei-o e com tempo, levou a filha à ria, à lama e à areia branca para ela saber como fazia o pai. Fez ele muito bem.

Eu ainda beneficiei de alguns, cozidos e bem condimentados. Soube-me bem. Soube-me a outros tempos, que não voltam mais. Ainda assim, as lembranças são parte de nós. E o sabor que me ficou na boca também.

Vamos ver se também eu lá consigo ir da próxima vez. Sem castigos, e com o balde cheio.

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O Torrão Sacramento deixou-nos. Conheci-o em 2005, enquanto estoicamente tentava segurar o baluarte ilhavense. Falei com ele ao telefone há alguns meses. Convenci-me que ele ia vencer mais esta batalha. Até um dia.

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