A Gafanha da Encarnação faz quinze anos de vila. Quem conhece a freguesia, sabe que esta elevação trouxe consigo pouco mais do que algum orgulho das suas gentes e muita propaganda dos seus responsáveis políticos. Antes de cada aniversário, lá vemos presidentes de câmara e junta a passearem pela ria, a apontarem à obra feita e à que falta fazer, a darem entrevistas e assumirem desejos do passado que nunca se tornam presente. Com as devidas diferenças, faz-me recordar o estilo Kim Jong-un. O caso do saneamento básico é só mais triste um exemplo. Desta vez é que é. Da próxima vez veremos se será. 

Não obstante as enormes potencialidades que a freguesia tem – com a Costa Nova, o mar, a ria e a sua posição estratégica – a obediência política tem feito com que não saia do seu lugar. Não se desenvolva. Bem sabemos que a manta económica é sempre curta, mas a junta de freguesia, eleita pelo povo da Gafanha da Encarnação, não pode continuar estrategicamente calada sempre que a autarquia ilhavense não cumpre. A fidelidade partidária tem limites. E esses limites são a confiança que foi depositada nas urnas com um único propósito: governar a vila da Gafanha da Encarnação.

Li com cuidado a entrevista do presidente da Junta de Freguesia, Augusto Rocha, a este Jornal. Admito, de bom grado, que é um autarca trabalhador e atento aos problemas da freguesia que dirige. Parece-me preocupado e profundamente honesto. O problema, passados quinze anos da elevação a vila, é que as palavras fazem pouca obra. E a escassez de obra é mesmo o calcanhar de Aquiles do executivo. A caminho do termo do seu segundo mandato e, eventualmente, a caminho de um terceiro. Pela sua freguesia, e pelas gentes que nele votaram, Augusto Rocha deveria reivindicar muito mais para a freguesia que dirige. Após o primeiro mandato, no qual pouco mais há do que conhecer a casa que se vai comandar, o segundo deveria ser já de maior exigência para com os restantes poderes públicos.

Mais equipamentos, mais apoios de emergência para quem passa dificuldades, mais atenção ao território, aos arruamentos, à sinalização de trânsito, à limpeza de estradas e passeios. Mais atenção ao bem-estar animal, à iniciativa cultural, às associações da freguesia que não vestem a mesma cor. Mais uma vez, bem sei que o dinheiro é sempre pouco e não dá para todas as soluções. No entanto, enquanto as restantes freguesias do concelho levam a água ao seu moinho – a começar pela Gafanha da Nazaré, da mesma cor política –  a pouca vontade e dinâmica inexistentes têm levado a que a Gafanha da Encarnação continue esquecida pelo executivo camarário. Em abono da verdade, Fernando Caçoilo pode estar descansado. Só precisa de passar pela freguesia em dia de aniversário. Durante o restante tempo, Augusto Rocha dá-lhe descanso. 

E com o descanso que leva da nossa freguesia, Caçoilo pode investir no restante concelho. Melhor do que ter uma oposição inconsequente, é ter companheiros que não incomodem. Mesmo que o incómodo tenha por objetivo trazer mais investimento para o território sobre o qual temos responsabilidades. Passados os festejos, e com as canas apanhadas, vejamos o que sobra da festa. Por este andar, pouco que valha a pena. 

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